A crise humanitária que se desenrola no enclave espanhol de Ceuta, no norte de África, expõe com enorme crudeza a vulnerabilidade extrema de quem tudo arrisca por uma nesga de futuro. Contudo, perante as imagens perturbadoras que chegam daquela linha de costa, assistimos a uma vaga fulminante de ódio e ressentimento contra os imigrantes. Em vez de suscitar a empatia mais elementar, o sofrimento alheio é rapidamente instrumentalizado para alimentar a rejeição, o medo e o preconceito social.
Quem conhece a fundo as dinâmicas da região e sabe do que fala não hesita no diagnóstico: aquilo a que assistimos é a instrumentalização deliberada de seres humanos por parte de Marrocos, que utiliza o fluxo e o desespero de pessoas frágeis como uma ferramenta fria de pressão geopolítica sobre a Europa, a Espanha em particular. Paralelamente, surgem no debate público propostas absurdas acopladas a uma retórica de pânico, como a ideia de retirar Espanha do espaço Schengen — um contrassenso absoluto que não faz qualquer sentido do ponto de vista prático e jurídico, dado que Ceuta se situa fisicamente no norte de África e tem um estatuto fronteiriço e migratório muito específico. Mas, no fim de todo este emaranhado técnico, político e diplomático, uma questão essencial impõe-se: é mesmo preciso encontrar argumentos tão complexos, análises tão rebuscadas e desculpas tão elaboradas quando a nossa preocupação central devia ser, pura e simplesmente, a preservação da dignidade humana?
O conceito de fronteira procura explorar estas ideias no cerne da profunda crise moral que atravessamos. O que é ser europeu diante do sofrimento alheio? O que importa perceber na instrumentalização de quem chega a Ceuta? A quem importa esta interrogação ética?
Pessoas dominadas pelo medo e pela raiva tornam-se presas excecionalmente fáceis de manipular por narrativas de ódio, por demagogias circunstanciais e por interesses de ocasião. Quando a tempestade das emoções cega a razão e destrói a compaixão, o recurso à filosofia clássica oferece-nos uma âncora indispensável de lucidez e de discernimento. Ando a ler Séneca, especificamente as suas “Cartas a Lucílio”, e aconselho vivamente essa leitura: o filósofo estóico lembra-nos de que a elevação do espírito exige rejeitar categoricamente as paixões desordenadas que nos curvam ao ruído da multidão e à manipulação, mantendo a firmeza moral e a serenidade perante a barbárie do preconceito.
Por essa razão, a nossa abordagem a esta tragédia não deve ser conservadora no sentido de evitar novas políticas de acolhimento ou de cristalizar o medo como norma de convivência. Pelo contrário, a gravidade do momento é um incentivo urgente à resignificação do conceito de solidariedade, à aceitação da multiplicidade de vivências e ao reforço dos direitos fundamentais. A resposta ao desespero não passa pelo enclausuramento ou pela desumanização do outro. Temos de criar espaços sociais, políticos e institucionais que permitam isso mesmo: lugares de diálogo livre, de serenidade crítica e de respeito incondicional pela vida humana, onde a fronteira deixe de ser um pretexto para o ódio e se torne uma plataforma de responsabilidade e de constante construção comunitária.