Maus exemplos

Desde o início da pandemia que a sensibilização da população para o cumprimento de regras sanitárias e para a necessidade de não facilitar perante um tão traiçoeiro e mortífero vírus tem sido uma arma essencial no combate à pandemia.

Os responsáveis públicos têm, regra geral, feito essa sensibilização, nem sempre da melhor forma é certo, mas esse esforço foi sempre notório. E a verdade é que, também na sua grande maioria, a população tem cumprido, apesar da saturação que este longo período de restrições implica. 

Igualmente importante é o exemplo que se dá. Será difícil levar a sério um governo que, de manhã apela ao cumprimento das regras definidas e que à tarde desrespeita essas mesmas regras. Isso destrói a credibilidade do governo ou dos responsáveis que o fazem.

Não é por acaso que já existiram várias demissões por essa Europa fora de ministros e responsáveis, por pressão pública, devido ao incumprimento flagrante de regras sanitárias.

Por exemplo, em agosto do ano passado, Dara Calleary, ministro da agricultura irlandês no cargo há apenas um mês, esteve numa festa realizada num hotel, com muitas outras figuras políticas, entre as quais o comissário europeu para o Comércio, Phil Hogan. O destino de ambos foi a demissão.

Vem isto a propósito dos vídeos publicados num canal da rede social youtube- kanal ilha 3 - em que o Secretário Regional da Agricultura, o Diretor Regional da Cultura e um deputado do PSD aparecem em festas onde, para além dos dois primeiros maltratarem animais com um ferro em brasa (será que essa é uma prática que consubstancia a certificação em bem-estar animal que o Secretário recentemente anunciou?) desrespeitam todas as regras sanitárias.

Num desses vídeos, num espetáculo de cantigas ao desafio, que decorre numa pequena sala a abarrotar, contam-se mais de 40 pessoas, entre as quais o Secretário Regional da Agricultura, o Diretor Regional da Cultura e um deputado do PSD. Todos sem máscara e sem qualquer distanciamento. Uma irresponsabilidade. Um dos improvisadores que cantava ao desafio na dita festa, lançou a seguinte frase: “Se tomarmos precauções, com certeza, teremos de volta as nossas tradições”. Não percebi se era ironia, mas pareceu.

Recordo que mesmo nos concelhos de muito baixo risco há limitação de ⅓ da capacidade para a presença de público em eventos culturais e a necessidade de garantir as regras de distanciamento social. Claramente, nada disso foi cumprido. 

Não sei se estes responsáveis políticos estavam nessa festa enquanto tal, mas o exemplo não se exige apenas das 9 às 17 h. Como é que esta atitude se compatibiliza com a imposição de medidas restritivas que se aplicam a toda a gente e que têm um impacto social e económico fortíssimo? Que credibilidade tem o governo para exigir o cumprimento dessas medidas e de tentar sensibilizar as pessoas para o seu cumprimento, quando eles próprios não cumprem?

Gostaria de saber o que pensa o Secretário da Saúde e Desporto, Clélio Meneses sobre esta atitude. E já agora se o presidente da comissão de acompanhamento da pandemia aprova este comportamento.

Não estou com este alerta a pedir a demissão de ninguém. Cada um assume as suas responsabilidades e o Presidente do Governo é responsável politicamente pelos seus secretários. Alerto apenas para a absoluta incongruência entre o que se faz, e aquilo que se diz e se impõe por lei. 

Não será por isso de admirar que quem vê essas imagens deixe de levar a sério o que dizem os responsáveis públicos. E isso é muito grave.