Nota prévia: no artigo da semana passada há uma gralha, tal como o leitor decerto notou. A democracia dos gregos antigos era uma democracia direta e não representativa.
Do último artigo inferimos: a pluralidade é uma força que promove o debate e nos leva a ter em consideração diferentes caminhos de ação, sendo um pilar que é necessário aprofundar em qualquer democracia. Também percebemos que esta dimensão nas democracias representativas, como a nossa, se faz através do voto, que resulta numa assembleia com vários partidos políticos – garantes de várias correntes de opinião. O sistema é o mais proporcional possível utilizando-se, por exemplo, o índice de Gallagher para averiguar a diferença entre representação do voto popular e dos mandatos eleitos, sendo que vários países fizeram reformas no sistema de forma a se obter um resultado inferior a 5 (como a Canadá). O círculo de compensação açoriano tem esta função. Em 2020, o índice de Gallagher foi de 4.74.
Esta proporcionalidade numa assembleia importa para o trabalho legislativo, chegar a consensos sobre matérias, mas também ao executivo, para haver um apoio parlamentar à sua atuação. O ponto crucial é que a existência de vários partidos não se justifica só numa assembleia, mas também no governo. Como disse: a menos que um partido tenha 100% dos votos, ele não está de acordo com grande parte da população. Na europa é extremamente comum haver coligações quer pré, quer pós-eleitorais, sendo o exercício de governação também um local de constante debate interno. Que se desengane o mais entranhado português: este debate não é propriamente gerador de instabilidade é, isso sim, a garantia de que há um diálogo entre correntes políticas diferentes que representam segmentos da população e no seu todo representam a maioria que foi declarada em voto.
Foquemo-nos nos Açores: o voto popular está francamente bem representado na assembleia, sendo que estamos longe de ter uma realidade bipartidária, apesar de termos claramente dois partidos que são os maiores da nossa democracia, sendo um centrão que detém sempre a esmagadora maioria do voto. Mesmo que em ilhas pequenas não consigamos eleger alguém do partido em que votámos, esse voto continua a valer e tem o seu reflexo no círculo de compensação. Em 2020, só cerca de 3% das pessoas votaram num partido que não foi eleito. Temos atualmente 8 formações políticas na assembleia.
As açorianas e os açorianos podem votar em quem melhor se reveem para a sua assembleia regional. Quem apela a um voto estratégico, um voto «útil», não conhece a realidade eleitoral açoriana.
É preciso termos mais pessoas a dar mais força a partidos que não ao PSD ou PS. A atual coligação é um exemplo, tal como foi a Geringonça, de como é possível termos soluções plurais. O problema da formação deste governo nos Açores é estar dependente da extrema-direita, algo que em vários países europeus foi sempre evitado, criando-se cordões sanitários.
Infelizmente, esta maioria de direita não tem conseguido responder às problemática açorianas. Continuamos uma região na cauda do país e da europa. Mas que se desengane quem lê estas palavras: a solução não é um voto útil no PS e voltar à estagnação em que estávamos. A solução está em votar forças à esquerda que obriguem ao PS formar um governo plural e progressista. Precisamos de forças externas, partidos políticos, à esquerda do PS com mais força para mover esta montanha para a esquerda. Tudo depende do teu boletim de voto.