Muitas questões, pouca cidadania

Hoje parto de uma curta história, algo que presenciei. Há já alguns dias, fui com um amigo e camarada ser militante: colar uns mupis e, aproveitando o caminho, distribuindo uns panfletos sobre a atualidade. Ora, num snack-bar entregamos diretamente aos clientes esse panfleto, por estarem à mão e serem conhecidos do meu camarada. Quando estamos de saída do estabelecimento, passamos pelo grupo abordado inicialmente e um dos seus elementos quis partilhar a sua opinião: os panfletos não deviam ser distribuídos, uma vez que as necessidades desveladas das nossas ilhas manchariam a imagem com que turistas e emigrantes ficariam da nossa terra.

Esta foi só a primeira questão de uma série de outras que também gostaria de discutir aqui. Primeiro, acho importante notar como esse senhor, do início ao fim, manteve o nível dos decibéis do seu discurso a rivalizar com aquele de uma mota. Não é um pormenor, é o registo de quem pretende um monólogo, tem uma ideia inabalável, mesmo que sem uma justificação – parece ser esse o tom vigente da discussão política. O meu camarada calmamente tentou manter um diálogo, confesso que eu nem tentei. Troquei impressões com um outro senhor que estava de facto disposto a conversar francamente.

Vamos então às ideias lançadas. Primeiro, aquela mais pessoal, a que mais me frusta, que consiste em afirmar «vocês que andam na política». Ao longo do monólogo do senhor esta expressão foi repetida incontavelmente para se referir a rostos familiares que se associam a instituições políticas, nomeadamente partidos e órgãos de soberania. Como «todos são iguais», a expressão conjuga-se pejorativamente. De facto, a minha grande frustração é mesmo considerarem que tenho interesses pessoais para assumir um compromisso partidário ou eleitoral. Como é possível que estas pessoas que me conhecem minimamente, que sabem o partido no qual milito, consideram que retiro vantagens? Custa a quem cede parte a sua vida pessoal e académica para voluntariamente melhorar a sua comunidade ouvir isto. Mais, custa sentir a imposição da clivagem entre as «pessoas» e os «políticos». A figura do «cidadão» parece não ter lugar, é quem mais tem a ganhar com participar na discussão política quem se exclui.

E esse é o início do segundo ponto. Não faz, segundo o senhor, sentido apresentar panfletos com críticas (mesmo construtivas), só se deve comunicar politicamente quando se chega a soluções, que são tidas nas assembleias - «entre os políticos». Não há cidadãos: as pessoas não podem agir politicamente (petições, iniciativas, manifestações, associações,…), só os políticos. E nem é preciso saber (quanto mais participar) na discussão política! Mesmo defendendo a importância dos programas eleitorais, é impossível antecipar todos os assuntos discutidos em assembleia – além de que pode ser necessário dar visibilidade a problemas para serem debatidos.

A assembleia seria, então, o sítio onde nós deveríamos estar – e não ali no snack-bar. Eu concordo com o senhor, mas, infelizmente, senhores como ele não me deram a força eleitoral para conseguir lá estar. Até ao voto retirou o valor.

E a imagem manchada? É mais um mal dos tempos: as coisas ou são boas, ou más. É impossível algo ter simultaneamente aspetos positivos e negativos, num mundo de posições dogmáticas.

O que me preocupa é que o que se passou com este senhor é o resultado de condições culturais que se reproduzem em muitos senhores e que resulta numa conclusão ao virar da esquina: uma ditadura até que ia bem.