Muito por fazer

O que não faltam estes dias são letras nos ecrãs e tinta nos jornais sobre as eleições presidenciais brasileiras. Normalmente, tento fazer deste espaço uma bolsa de oxigénio para fugir às sensações do momento, voltando a elas depois, mas hoje será diferente. Escrevo estas palavras na madrugada de segunda, ainda sem ter havido uma reação do atual presidente Bolsonaro.

Lula ganhou. 50,90% contra 40,10%. Foi uma vitória renhida. Aliás, alem do grande interesse político, esta eleição trouxe ao de cima marcos para a História do Brasil democrático: a corrida presidencial mais renhia, a 2ª volta com mais votantes que a primeira, a não reeleição de um incumbente, a eleição de um ex-presidente e o terceiro mandato presidencial de um político brasileiro. A tradição do vencedor ser o vencedor em Minas Gerais continua intacta. O mapa mantém-se, um Nordeste trabalhista e um Sul conservador.

Estes marcos são testemunhos de umas eleições em que muito esteve em jogo: o futuro de uma das maiores democracias mundiais. O exemplo dado em 2017, uma deriva em busca de ideais autoritários para conferir estabilidade a um país desiludido e desunido, seria continuado? Trump foi empurrado, Bolsonaro também. Le Pen continua a não chegar ao poder, mas Meloni conseguiu e os «Democratas Suecos» têm um governo na sua mão. Vivemos num tempo conflituoso. Parece que a memória traumatizante do ódio do século passado se foi e estamos dispostos a aceitar a normalização da extrema-direita. Se é verdade que se tem conseguido retirar protofascistas do poder, também é verdade que alguns já lá chegaram antes e continuam a chegar como agora disse. A existência de algum é um a mais e o tempo que esteve no poder, foi tempo a mais.

Vivemos em tempos politicamente conturbados por estas incursões da retórica autoritária, mas não nos enganemos: esta agitação é uma consequência das crises que enfrentamos. Quando todos os dias nos entra pelos olhos a instabilidade aquilo que mais queremos é justamente a estabilidade. Historicamente está mais que visto: sempre que se sente instabilidade, os adeptos de políticas autoritárias crescem. Por isso mesmo, não admira que haja quem tente fazer engenharia social para inventar crises onde não existem. Quantas vezes não ouvimos uns certos políticos da nossa praça afirmarem que Portugal é um país inseguro, quando somos um dos mais seguros do mundo? Há que ter cuidado e estar atentos a estes movimentos que depressa passam das palavras às imagens e, dominando uma comunicação social sensacionalista, somos levados a crer que algo que não é, é.

Não obstante ao alerta que fiz, a verdade é que nos encontramos já mergulhados em crises que nada têm de artificiais. É necessário haver a humildade de se formar frentes democráticas quando tal se justifique, como pautar por não ceder um milímetro de terreno a quem nos quer retirar a liberdade. Quando, para tentar aumentar a vantagem sobre o adversário, adotamos posições dele, então ele pode ficar de fora, mas a sua mensagem ganha. Lula ao ter dito ser pessoalmente contra o aborto, abdicou da defesa dos direitos humanos, que já há mais de 30 anos defendeu honravelmente.

Lula enfrenta um parlamento e um país divididos. Terá de chegar a compromissos que provavelmente ficaram àquem do que deveria ser feito. Não obstante, antes a governação ao centro que se avizinha a uma agenda antidemocrática progressiva.

Permitam-me só acabar com esta nota: tudo no mundo influencia tudo. Portugal também tinha muito em jogo nestas eleições. E ganhou.