Esta semana tivemos a confirmação daquilo a que vem o nosso Governo Regional: uma preferência por negociar com a extrema-direita do que com o campo democrático. Todas as 23 propostas do CH Açores foram aprovadas. O PAN apresentou 44 e duas foram aprovadas, o BE apresentou 40 e todas rejeitadas, o PS apresentou 36 com três aprovadas (a IL não apresentou propostas). A normalização da extrema-direita, aquela sem pudor na instrumentalização de crianças para promover o conflito e a discórdia, desviando o olhar da raiz dos problemas, tem mais um passo no nosso país e é triste que venha da nossa região.
Já várias vezes aqui trouxe as questões da indiferença e da pós-verdade. De como cada vez nos importamos menos com factos e nos deixamos levar pelas nossas intuições e sentimentos pessoais. Eu não digo que haja uma verdade objetiva que deve ser seguida, até porque isso seria entrar numa tecnocracia. Deve haver diferentes pontos de vista, porque é daí que se se gera a discussão e, por conseguinte, a reflexão, a ponderação. E é aqui que os factos são precisos: o caminho de cada fação faz-se através de encontrar a sua forma coerente de abarcar e explicar os factos. Aquilo que nós vemos hoje é a indiferença perante os factos. É bullshit (à maneira de Frankfurt). Diz-se o que se pensa ser preciso em cada situação perante o outro – para persuadir, manipular ou simplesmente manter uma conversa. Factos e coerência não são mais necessários. A memória é, portanto, algo inútil: e isso faz-se sentir bastante. Relembremo-nos de alguns episódios que tanto alarido provocaram, e bem, mas que parecem ter ficado enterrados.
A 12 de abril o diretor do Expresso publicava «É mais do que um embuste. É enganar os portugueses» sobre a forma como se estavam a manipular os números da redução do IRS.
A 17 de maio estilhaçou-se a última réstia de bom senso na Assembleia da República quando o seu presidente proferiu «No meu entender, pode». Aguiar-Branco reponde assim à pergunta «se uma determinada bancada disser que uma determinada raça ou etnia é mais burra ou preguiçosa também pode [ser dito sem repreensão]».
No dia 23 de outubro, Pedro Pinto afirma na RTP «se a polícia atirasse mais a matar, o país estava em ordem».
Na capa do Expresso de dia 22 de novembro lia-se garrafalmente a manchete «Número de alunos sem aulas caiu 90% face a 2023». Na no dia 29 de novembro aparecia modestamente um título que afirmava «Ministro faz mea culpa: números de alunos sem aulas não são fiáveis», desta vez, sem nota do diretor.
No dia 25 de novembro, Ventura, durante a sessão solene do 25 de novembro declarou enquanto apontava para as bancadas à esquerda: «Como dizia Jaime Neves sobre a guerra do Ultramar, era mesmo assim: “Quando nos mandavam limpar, nós limpávamos tudo.” Já começámos, vamos continuar.»
No dia 29 de novembro no parlamento foi discutido, no âmbito do Orçamento de Estado, discutiu-se o fim do corte aos vencimentos de políticos que foi uma das medidas a partir de 2011 para controlar as contas públicas. O CH decidiu fazer isso passar por um aumento de salário e pôs-se a pendurar cartazes na fachada da Assembleia como protesto.Aguiar-Branco aqui já se sentiu, esperemos que tenha percebido o alcance do «no meu entender, pode», e acusou essa ação de constituir «vandalismo político». Perante a recusa do CH retirar os cartazes, de várias maneiras e modos, acabou-se por chamar os bombeiros. Ventura esperou que os bombeiros chegassem a cada janela, olhando-os nos olhos, e, um a um, foi retirando os cartazes. A fatura dos bombeiros foi de quase duzentos euros. Permitam-me a nota de que IL, Bloco e Livre também votaram contra (e o PCP absteve-se).
Esta lista seria interminável ao pensar noutras controvérsias, mas entre as mais recentes e as mais antigas, aqui fica esta triste antologia.