Desde logo peço desculpa a quem lê este texto por quase metade serem referências: julgo serem todos pontos desta semana que passou que nos devem fazer refletir.
Se na semana passada já aqui tinha posto a incoerência de Montenegro quanto à primeira medida, que foi a mudança do logótipo, em vez da baixa dos impostos, esta semana ficámos a conhecer mais contradições deste novo governo, demonstrando um enorme desrespeito pelos eleitores.
A grande notícia é a do «choque fiscal» [1], tão aguardado, e de tal forma frouxo que até as forças de direita o criticam. Fazendo as contas, é fácil perceber que a redução do IRS corresponde quase totalmente ao previsto pelo PS, nos 1500 milhões anunciados, há só um acréscimo de 173 milhões em relação ao avançado por Medina [2]. Julgo que ver estes dois vídeos [3] nos permitem perceber a desonestidade deste governo. Isto deve-nos preocupar seriamente, estamos a falar dum «partido de governo» que sistematicamente atua diferentemente do proposto.
Infelizmente, também sabemos para quem trabalha este governo, quem pretende beneficiar. As mudanças no IRS jovem, por exemplo, beneficiam só quem tem salários mais elevados [4]. As moções de censura apresentadas justificam-se, justamente, pelos benefícios dados a uma elite económica, em detrimento dos trabalhadores [5].
Como se não bastasse, temos reações de retrocesso em questões sociais, tendo, por exemplo, o Observatório das Migrações já alertado para as fragilidades desta nova visão sobre a imigração [6]. No âmbito de uma proposta votada no parlamento europeu sobre o aborto, Montenegro mostrou-se desfavorável ao reconhecimento desse direito como direito fundamental na União Europeia [7].
Este conservadorismo que figura no governo tem paralelo na sociedade civil, fruto de uma normalização que permite o à-vontade para dizer as maiores absurdidades [8], ainda por cima com o apoio de um ex-primeiro-ministro. Ao olharmos para estes académicos conservadores, percebemos facilmente a sua desonestidade intelectual e baixeza moral [9].
Nos Açores, uma deputada, imagine-se, do CHEGA, achou por bem votar contra um voto de saudação aos 50 anos do 25 de abril (ao contrário de todos os outros deputados) [10]. Já para não falar do drama da SATA e as vagas no Governo dois meses depois das eleições.
Quando chegamos a este ponto, só apetece mesmo dizer: não me chateiem. Mas que ninguém se iluda: este é o momento de irmos para a rua defender a nossa voz e os nossos direitos.
[3] https://twitter.com/Tomas_Pereira_T/status/1778704118460112989
[5] https://www.publico.pt/2024/04/11/politica/noticia/be-pcp-tentam-rejeita...