No passado dia 4 de agosto, Mário Ferreira tornou-se o primeiro português no espaço. A bordo da Blue Origin realizou uma viagem de quase 11 minutos, dos quais 3 foram passados em gravidade zero. Mário Ferreira é, portanto, um herói nacional. Só que não.
Desde o final dos anos noventa que o turismo espacial deixou de ser só um sonho da ficção científica e saltou das páginas dos livros para a nossa realidade. Em 2001, Dennis Tito tornou-se o primeiro turista espacial, desembolsando 20 milhões de dólares. Desde esse momento o número de empresas que apareceram a apresentarem pacotes para viagens ao espaço aumentou extraordinariamente. Mário Ferreira pagou mais de 200 mil euros, um valor 100 vezes mais barato do que o primeiro voo, mas ainda assim muito distante das possibilidades da esmagadora maioria das pessoas.
Muito se fala na democratização do espaço. Do sonho que é todos nós podermos aceder a informação de satélites, de lançarmos os nossos equipamentos, de existir turismo espacial, até mesmo de podermos explorar novos mundos. Olhar para recursos geológicos raros na Terra e lançar instrumentos que os explorem e tragam de fora é um objetivo traçado, por exemplo. Estamos a falar de olhar para o espaço como local pronto a ser explorado, sendo esta uma nova corrida ao espaço que, ao invés de opor nações, opõem indivíduos. É uma competição entre mim e o meu vizinho. É eu conseguir ter um hectare da Lua.
Esta é uma visão totalmente oposta àquilo que devemos esperar sobre o desenvolvimento da exploração espacial: um esforço internacional científico em prol de uma exploração sustentável, num cenário onde o espaço sideral é encarado como um meio de desenvolvimento da espécie humana e não como um local de transações económicas onde se delimitam fronteiras e se açambarcam recursos que a todos nos fazem falta.
Temos de olhar para o espaço como uma forma de todos nos entendermos, independentemente da religião ou nacionalidade. Juntos, num esforço de sobrevivência coletiva e progresso. Temos na ESA o esforço de uma sinergia de quase três dezenas de nações. Que se juntam a sinergias internacionais que juntam, por exemplo, a NASA. Trata-se da Terra, como um todo, a tentar explorar o que está pra além de nós, sem barreiras. Onde somos todos nós a liderar uma expedição científica, onde somos todos nós a delinear o futuro da espécie humana.
A democratização do espaço tal como ela hoje é discutida não passa de um disfarce neoliberal sobre a forma como vemos a exploração espacial. Trata-se da replicação do homem sobre o homem que experienciamos na Terra, para o Espaço. Cabo, portanto, a nós, ao povo, mostrar que queremos uma sociedade onde a equidade é valorizada, onde afirmamos que não existem fronteiras no espaço, que o devemos usar como um bem coletivo, como um esforço internacional.
Mário Ferreira é o exemplo de como alguém que sem qualquer propósito científico ou técnico, simplesmente por ter dinheiro, consegue aquilo que pretende. Chamam-lhe de democratização, mas só é democrático para quem tem dinheiro. Esta noção replica-se um pouco por cada área do nosso quotidiano. Temos de abrir os olhos e perceber que há um melhor futuro do que aquele que nos parece. Esta noção só nos leva a uma conclusão: taxem os mais ricos!
Se é para os Açores terem um papel no futuro da exploração espacial, que saibam escolher estar do lado das pessoas.