E quem me lê, saberá? Não sei o que esperar de 2021, nos Açores, a respeito de cultura. Estamos em tempo de pandemia, não o esquecemos. E não sabemos o que esperar de muita coisa, é certo. Dos impactos a médio e longo prazo na educação dos nossos jovens. Dos efeitos sociais dos sucessivos confinamentos e da imposição de uma distância artificial entre as pessoas. De todos os efeitos económicos a médio e longo prazo. Não sabemos quais serão.
Mas sabemos, os que estamos aqui, uns com os outros, a passar por isto, que há coisas que podemos fazer no hoje. Sabemos que precisamos do outro para entender quem somos e onde estamos. E que embora tenhamos aprendido uma comunicação acelerada e a fingir que não há distância, também sabemos que isso nunca poderá ser tudo. Há significados que não podem ser trocados através de um ecrã. Não sabemos o que perdemos por não os estarmos a cultivar.
Outra coisa que sabemos é que os artistas dos Açores atravessam um período difícil. Independentes, associações, empresas, profissionais e/ou amadores, têm vindo a público esclarecer as suas principais dificuldades. Muitas dessas preocupações são pessoais, ao nível da subsistência, outras corporativas, mas são sempre também comunitárias, pois que se está a deixar cair o que muitos têm vindo a levantar a pulso e com dedicação. O apoio extraordinário proposto recentemente pelo Governo Regional, com uma candidatura que durou apenas 15 dias, não veio dar resposta aos seus principais anseios.
E no entanto, desconheço por completo a política cultural da atual Direção Regional da Cultura. Não posso cair no engano de achar que uma pálida proposta de transmitir eventos online ou pela televisão é uma estratégia, quanto mais uma política. Até porque conhecemos bem a polémica que atravessou o mesmo tipo de proposta a nível nacional e que levou ao seu cancelamento.
O que podemos fazer hoje, também por nós mesmos, é dar condições a quem sabe criar gestos com significado, memoráveis, emotivos, reflexivos. Podemos começar por nos darmos conta de que é uma exigência que temos o direito de fazer, como cidadãos.