Nas costas dos outros vês as tuas

Que se subverta a expressão popular e se afirme: nas urnas dos outros se vêm as nossas! Se o interesse pela política nacional anda pelas ruas da amargura, aquele pelo que se passa nos outros países, ainda pior. No passado domingo realizaram-se eleições em Itália. Mas porque carga de água nos interessam as eleições noutro país?

Desde logo, a Itália, neste caso, integra a União Europeia, elegendo deputados para o Parlamento Europeu, sugerindo um comissário europeu e, claro, tendo assento no Conselho Europeu. A orientação política do próximo primeiro-ministro italiano poderá ter uma influência de não subestimar nas medidas europeias, sendo os portugueses igualmente afetados. Ainda por cima em tempos de sucessivas crises, não nos podemos dar ao luxo de fazer de moucos.

Por outro lado, não deixa de ser interessante olhar para outros países como casos de estudo daquilo que pode acontecer nas nossas casas. Que assuntos despertam mais interesse? Que movimentos políticos ganham tração? Está um discurso populista vazio a ser bem-sucedido? Qual é o impacto que a campanha e os meios em que é feita têm nos resultados eleitorais?

No momento em que escrevo este artigo é praticamente certo que a coligação de direita italiana governará a Itália. Pior. O partido mais votado é o Irmãos de Itália, liderado por Giorgina Meloni, sendo a sua dirigente aquela escolhida pela plataforma eleitoral para primeira-ministra. Espera-se que este seja o governo mais à direita desde Mussolini, sendo o partido herdeiro da tradição fascista.

Não é de ignorar o facto de vermos uma abstenção a subir 10%, tornando estas eleições naquelas menos participadas. As pessoas, ocupadas em conseguir viver as próprias vidas, garantindo o sustento para as suas famílias apesar das crises, não vêm na política uma forma de melhorar o seu quotidiano e simplesmente decidem ignorar o seu contributo democrático. Com um eleitorado desmobilizado, mais fácil é ganhar as eleições galvanizando um setor da população. Os italianos já demonstraram ser politicamente voláteis, ficando mais uma vez à mostra a facilidade com que confiam em políticos populistas com um discurso vazio.

O sistema eleitoral italiano vive em duas dimensões: a eleição por círculos uninominais e a eleição proporcional. Em ambas, as coligações saem valorizadas. Infelizmente, nem com as demonstrações de apoio à coligação italiana ou ao Irmãos de Itália, os liberais de Calenda ou os populistas de Conte foram capazes de se aliar à coligação de centro-esquerda. Com uma alternativa antifascista fragmentada e em disputa, a mobilização do seu possível eleitorado acabou por ficar a meio gás.

Que estas eleições sirvam de lição, mais uma vez, que, por vezes, é necessário fazer um esforço conjunto, mesmo que inclua engolir sapos, para termos um futuro mais digno. Não nos esqueçamos que Itália é um palco da crise dos refugiados. Não é por um partido ter uma mulher à sua frente, que não é fascista: os Direitos Humanos não estão assegurados. Estamos a falar de assuntos essenciais.

Ao mesmo tempo que vemos as implicações europeias destas eleições, tenhamos consciência das eleições a retirar: é preciso uma mobilização máxima nas urnas e um sentido de unidade para enfrentar aqueles que se aproveitam do sofrimento alheio para a sua agenda pessoal. Que se note que os mais desfavorecidos, por norma, acabam por não votar, estão preocupados em sobreviver, temos de chegar também a eles, enquanto garantimos o bem-estar da classe média.