Nem dei por elas

No passado dia 12 acabou a etapa letiva da minha experiência como professor do secundário. Acabou, porque se trata do término das aulas para os 10º anos, entre outros, na escola onde estou – as outras turmas que acompanho até já tinham terminado as aulas na semana anterior. Nesse momento, e nos dias que se sucederam, o maior choque que tive foi a mudança de perceção que senti: anteriormente essa data simbolizava algo, uma espécie de ritual, agora foi um dia como outro.

Certamente que o facto do trabalho docente continuar, além das atividades letivas não ajudou, mas a verdade é que é uma mudança enorme (principalmente porque tive de fazer do zero a esmagadora maioria dos recursos que usei). Contudo, este fim também é intenso pelas exigências burocráticas, além das reflexões para a atribuição das classificações aos estudantes. No meu caso, como estou a dinamizar a preparação do exame de Filosofia, ainda continuo com sessões até ao exame, enquanto vou fazendo vigilâncias em algumas provas e exames.

É claro que ter este trabalho (e este volume de trabalho que vai além do contratual) enquanto estou a fazer o mestrado não ajuda. Foi uma escolha que fiz e da qual não me arrependo. Foi uma nova coleção de experiências.

Mesmo assim, ter uma última aula com jovens que conheci durante um semestre como se fosse uma aula normal (em termos de carga emocional), parece-me estranho. A razão que me parece plausível é uma que gostaria de evitar: são as consequências da idade.

Nem me refiro a questões de deslumbramento ou sensibilidade, falo das etapas da vida, das expectativas individuais e sociais que lhe estão subjacentes. Do jovem em idade escolar tolera-se a vivência afetiva e simbólica dos marcos temporais. Em contrapartida, ao adulto inserido no sistema produtivo é exigida a normalização do cansaço e a subordinação das relações humanas aos fluxos processuais. No entanto, reduzir a docência a este cumprimento mecânico de tarefas encerra um perigo real de desumanização pedagógica. Se o encerramento de um semestre de partilha com os alunos passa a ser encarado com a indiferença de um dia de expediente comum, isso deve-se mais à formatação burocrática do que ao mero envelhecimento biológico.

É claro que as condições que já mencionei podem estar a agudizar o caso, afinal, certamente que tenho colegas que dirão algo distinto. No entanto, se formos falar com eles sobre o resto do ano, vamos aperceber-nos que provavelmente falarão em contrarrelógio. Como se pode construir um ensino personalizado nestes moldes? Como pode um professor participar e dinamizar projetos? Aquilo que concluo é que a forma como está montado o sistema já nos impõe o distanciamento à partida que precisamos. É assim que acabaram as aulas sem dar por elas.

Desengane-se quem acha que venho para aqui lamuriar sobre a vida docente, este é só um exemplo da expressão do problema que já aqui mencionei vezes sem conta: o esgotamento da nossa energia mental. 

O primado da eficiência estatística e do formalismo processual estende-se a quase todas as esferas da vida profissional, transformando cidadãos em meros administradores de tarefas. O cansaço crónico que se generalizou nas democracias modernas não resulta apenas do volume físico de trabalho, mas da constante perda de espaço para a espontaneidade e para a construção de vínculos comunitários genuínos. Ficaremos condenados a um papel de reação a pacotes laborais, sem a força de sermos nós a propô-los.