Se há algo que a minha licenciatura em Filosofia me tem ensinado é que as palavras importam. Não no sentido de pretensão intelectual, mas do nosso entendimento do quotidiano: parte relevante do nosso pensamento consciente é através da linguagem, comunicamos com o outro com palavras, oralmente ou por escrito, nem que seja para pedir o comando da televisão ou queixar de ter quase deixado as chaves em casa. Se há mundos platónicos, a linguagem é uma forte candidata. Às vezes convém pararmos e pensar um pouco no que dizemos ou ouvimos além do que dizemos ou ouvimos. Escolher uma palavra e não outra até pode ser inconsciente e inocente, mas tem certamente consequências. O melhor de tudo: a língua é dinâmica.
Há palavras azaradas, e não por acaso, que vêm os seus significados afunilados. «Crítica», por exemplo, é normalmente entendida como uma atividade destrutiva, uma opinião negativa sobre algo. Ora, ela na verdade pode ser interpretada de forma mais abrangente: como uma análise racional sobre algo. Ou seja, a crítica como inerentemente construtiva e que até pode ser favorável! É assim que se entende a palavra no Iluminismo e ainda nos nossos dias na Cultura. Outra palavra usurpada é «radical»: entendida como algo extremo, drástico, tem uma aceção muito mais importante, a de estrutural, de ir à raiz, de ver o que está na base. «Crítica» e «radical» são, portanto, palavras importantes para quem pretende ter um espírito crítico (olha-a aqui!), não deixa de ser de questionar, então o porquê de tanto falarmos na importância desse espírito, mas ao mesmo tempo rotular desfavoravelmente as suas caraterísticas.
O comodismo e a autoimagem talvez sejam a resposta: queremos manter a aparência para nós próprios que somos os maiores sabichões, sem fazer qualquer esforço. Tornamo-nos cínicos e só nos movemos se a isso formos obrigados. O pessimismo, ao mesmo tempo, também é uma palavra maldita – a não ser que seja antropológico. Nada deste parágrafo é produto nosso enquanto indivíduos, mas enquanto membros de uma sociedade. Permitam-me, então, avançar com um paradoxo que defendo: a crítica pessimista é uma forma de otimismo: trata-se de apontar as brechas, o que permite sará-las e continuar a construir.
Todos os dias lido com estas amarras contemporâneas: fadiga, desvalorização pessoal, culpabilização,... Sinto-me inerte. Não sou só eu, provavelmente também é assim que te sentes (chegados a este ponto, julgo que o «tu» se permite). É daqui que surgem os problemas crescentes de saúde mental. Como chegamos a este ponto? Através de todas as narrativas que vamos engolindo: as expectativas sobre a vida padrão, a competição omnipresente, a ânsia pela novidade, um consumismo que vai muito além das nossas relações materiais…
Arrastamo-nos quando tudo isto nos esgota. No entanto, agora, neste momento, já não só me arrasto: eu digo que me arrasto, eu escrevo que me arrasto, eu sei que me arrasto. Neste momento tomo consciência da minha condição. Sou pessimista e tenho as brechas elencadas. Vejo-as. Estão naqueles parágrafos, como também aos nossos olhos: a renda que pesa, a precariedade que ameaça, até no buraco da estrada, ou na árvore que não existe. Está nas bombas que ainda caem e na fome que existe.
Já não falamos só de palavras. A desigualdade e o ódio são bem materiais. Agora sabemos que estamos num mundo. Sabemos que esse mundo pode ser mudado, tal como eu posso comer esta clementina. Qual é o nosso tesouro? A motivação, a esperança de mudar o que percebemos ser concretizável. Porque é um tesouro? Porque é o que nos permite quebrar a inércia e agir.
Há muitas formas de agir, pelo meu lado, sou candidato à Assembleia da República e gostava de contar com a tua motivação para mudarmos vidas.