Há uns dias aprendi uma palavra nova: agonística. Trata-se de uma noção de conflito relacionada com a existência de adversários. Adversários e não inimigos. Uma diferença muito importante, afirmando a legitimidade da existência das pessoas do outro lado da barricada.
Em democracia, esta noção é de extrema importância. Temos de reconhecer no outro a possibilidade de uma divergência de opinião. Um movimento democrático que se preze valoriza a sua pluralidade. Um sistema democrático baseia-se na igualdade e na liberdade. Muito podíamos dizer a partir daqui, no entanto vou tentar focar-me na questão conflitiva.
Só quando temos duas perspetivas diferentes podemos fazer uma opção e selecionar a melhor alternativa. Uma democracia representativa, assente em partidos políticos, tem como pressuposto a existência de vários projetos distintos para comunidade, sendo que é da discussão entre eles que se afirmam as suas diferenças. O que acontece atualmente é que vivemos numa democracia desvirtuada, em parte, desse conflito, da agonística.
A Assembleia Regional, tal como a Assembleia da República, tem sido, ao longo da História, marcada por uma supremacia do centrão. O tempo fez com que PS e PSD se tornassem quase indistinguíveis, formando uma supermaioria de centro e levando a que a democracia se tornasse numa sucessão de processos eleitorais com uma perspetiva tecnocrata ao comando.
É natural que vendo um cenário onde não existe um verdadeiro debate de vias de ação, mas sim um artifício de ofensas partidárias, as pessoas se afastem da política. É necessário reverter esse processo de jogo ao centro e voltar a trazer à política verdadeiras alternativas. Elas já existem, sim, mas precisamos da confiança dos eleitores, novamente.
As pessoas são entidades individuais únicas, encerrando em si toda uma diversidade de ser e estar. Elas estão longe de ser representadas pelo centro. Não precisamos de ser neutros, precisamos de progredir. A moderação não é necessariamente o caminho, mas sim a ponderação.
Um caminho a ser tomado é, por exemplo, a via à esquerda. No entanto, se queremos um verdadeiro envolvimento popular temos de contruir essa alternativa junto das pessoas.
Existem vários movimentos e lutas que são políticas e despartidarizadas. Falamos de feminismo, LGBT+, antirracismo, mas também da cultura, ciência, porque em todas as áreas há, na verdade, uma dimensão política. Temos de conseguir chegar a essas pessoas e trazê-las para o campo político.
Só com um movimento transversal é possível criar não só uma alternativa, mas aquela que melhor se ajusta à vida das pessoas tendo em conta as suas especificidades. Muitas vezes é afirmado que movimentos de esquerda reduzem a pluralidade. A realidade é outra: um movimento verdadeiramente de esquerda valoriza a diferença, justamente por ser uma soma de partes com um objetivo comum.
Quando conseguirmos construir esta dinâmica política, teremos conseguido trazer a agonística ao de cima, porque além de haver uma verdadeira alternativa diferenciadora existe um envolvimento popular que aproximou os eleitores dos seus direitos de cidadania e permitiu que uma nova esperança no aprofundamento da democracia fosse possível. Funcionamos por reações em cadeia. Um contacto presencial boca a boca, mas também num registo digital de partilha. Está ao nosso alcance a construção de uma verdadeira democracia.