Permitam-me que hoje desenvolva as pontas soltas de há uma semana: se bem se recorda, discorri sobre duas esperanças quanto ao porto espacial em Santa Maria – o desenvolvimento da ilha e o debate sobre o acesso ao espaço -, sendo que me parece que a segunda razão ficou com algum desenvolvimento por concretizar.
Desde logo, o que é o acesso ao espaço? É a colocação de equipamento no espaço, sejam satélites em órbita, sondas, rovers para explorar novas superfícies,… Normalmente, os satélites mais baixos encontram-se a 160 quilómetros da superfície terrestre, os lançamentos que ocorreram em Santa Maria tiveram uma altitude máxima de aproximadamente 5,6 quilómetros – daí serem adjetivados de atmosféricos. Desta forma, percebemos como aquilo que existiu até agora foram testes. Não obstante, o objetivo será conseguir aceder ao espaço para lançar microssatélites. Este acesso parece ser rentável, porque muitas empresas parecem interessadas em colocar em órbita equipamentos seus e, portanto, procuram uma solução low-cost para microssatélites. A minha questão é: com que direito se mandam equipamentos para o espaço? As respostas óbvias são para investigação científica e telecomunicações, incluindo aqui as questões de navegação terrestre. De certa forma, a minha questão mantém-se, mas pode ser reformulada para clarificar: quem faz sentido ter acesso ao espaço? Serão as agências espaciais dos países, serão as empresas, serão consórcios internacionais de investigação, será uma federação de agências espaciais,…? Esta questão pode à partida parecer vazia de importância, mas ela tem duas dimensões: uma teórica e outra prática.
Começando pela teórica: o acesso ao espaço prende-se à motivação para o fazer. O movimento de colocar material nossa, artefactos de humanidade, fora da Terra é uma forma de expansão. No passado já fizeram movimentos semelhantes quando falar da “descoberta” do Novo Mundo. Dirão muito provavelmente que não podemos falar em colonialismo quando falamos de espaço, porque não existem pessoas na Lua, em Marte ou em asteroides (dou estes exemplos for serem as superfícies atualmente de interesse para explorar). A verdade, contudo, é que muitos projetos de exploração espacial pretendem levar a cabo uma exploração, por exemplo, de materiais e, assim sendo, pergunto-me: de quem são esses materiais minerais? Os sonhos a curto prazo são de montar bases nessas superfícies, de quem é essa superfície? A resposta provavelmente óbvia é que não é de ninguém. Estas respostas levam a uma consequência muito prática: uma corrida por essas posses. Será talvez ainda uma corrida muito embrionária, mas não quer dizer que exista. É, aliás, bastante ruidosa no que concerne, por exemplo ao turismo espacial, a empresas que levam turistas ao espaço. Basicamente, o que aqui quero dizer é: este acesso deve mesmo ser arbitrário, o acesso ao espaço não deve ser para o interesse da humanidade? Uma empresa privada criar uma base no espaço não representa os meus interesses, tal como um país o fazer também não. Estes esforços devem ser internacionais. Depois de ver o que as fronteiras nos fazem cá em baixo, é tempo de pensar o que fazer lá em cima.
Não obstante, ainda temos a ordem prática, a qual concretizo com dois exemplos de problemáticas no acesso ao espaço. A primeira é o lixo espacial que já orbita a Terra, apesar de falarmos de um voluma de espaço gigante, a verdade é que isto já se está a tornar um problema e colocar em causa a segurança dos equipamentos que estão funcionais e que podem ser atingidos. Tem de haver um planeamento. O segundo é que muitos dos satélites em órbita têm como propósito missões de defesa nacionais – a guerra também se faz do espaço. São muitas vezes as empresas de defesa aquelas interessadas em explorar infraestruturas de monitorização de atividades espaciais. Quem opera o teleporto espacial em Santa Maria, que é concessionado pela ESA, é a Edisoft, uma empresa que pertence ao Grupo Thales, um gigante da defesa nacional que viu as suas ações aumentar sucessivamente desde a invasão da Ucrânia. Longe de querer levantar suspeitas, quero mostrar como este não é um tema inocente, mas um debate urgente e necessário – que, infelizmente, por cegueira ideológica, nunca será tido pela Portugal Space.