Todos temos esta intuição de olhar para o nosso tempo e colocarmos as mãos à cabeça, talvez como forma de nos sentirmos parte de um tempo especial, que nos sirva de conforto existencial. Estou certo de que a nossa História é mais estática do que parece: os problemas são os mesmos, apesar de se apresentarem com contornos distintos. Gostamos muito de dar destaque ao tempo, mas é no espaço que se jogam muitas desigualdades e idiossincrasias. Falo do espaço como coordenada, urbanismo, ecologia, nacionalidade, instituição, tradição, objetos,… Não obstante a tudo isto, partilho aqui algumas preocupações que tenho particularmente tido. Partilho-as como forma de dar visibilidade, mas também para fazer o clique a quem considera que não estamos a ir por um caminho grave.
Desde logo, começámos o mês com o espectro de uma ameaça direta e assertiva à nossa democracia: a possibilidade da polícia não colaborar nos procedimentos das eleições a 10 de março [1]. Por muito justa que seja a luta das forças de segurança públicas, é completamente injustificável colocar em causa a nossa democracia. Termos declarações deste teor feitas nos 50 anos do 25 de abril deve fazer-nos refletir em como é fácil perder algo que damos por garantido.
Há uma outra situação gravíssima que só estes dias me tenho apercebido: a violência contra jornalistas. Portugal é um país seguro e calmo, um nas posições cimeiras no mundo. [2] O editorial conjunto das redações do Fumaça e do Setenta e Quatro, perto da sua conclusão, elenca quatro situações, além daquela que lhe dá origem. [3] São 5 situações em dois meses – 8 jornalistas agredidos. É inconcebível que em parte destas situações tenha sido a própria polícia a agredir, mesmo havendo a identificação de jornalistas.
Claramente tem de haver uma clarificação e uma reflexão estrutural sobre a polícia que está a atingir um ponto de rutura muito perigoso.
No ambiente de campanha temos, também, muitos dissabores. Desde logo, a interrupção infeliz que Luís Montenegro fez a Mariana Mortágua no debate: “Posso interromper?”, perguntou Montenegro; “Não, não pode”, respondeu Mortágua; Montenegro afirma “Poder posso mas não quero, poder posso mas não quero.” É impressionante como o líder do segundo maior partido tem uma intervenção deste tipo. Além da infantilização do debate, temos uma ponta do patriarcado em que vivemos. Muito se falou sobre o assunto e muito se percebeu como as mulheres na política têm a vida muito dificultada. No debate de Montenegro com Inês Sousa Real ficou claro o desrespeito do líder da AD.
Como se não bastassem estes episódios, ainda temos a prova de como a comunicação social escolhe dar palco, desproporcional, ao Chega. Não é pura negligência violar as regras dos debates e dar a Ventura e a Montenegro 19min a cada, quando o tempo máximo tem sido 14min – situações houve que acabaram o debate sem chegar aos 11min para infelicidade dos candidatos. [4] Como se não bastasse, há o recurso a ferramentas pseudocientíficas para valorar os debates, como o «Pulsómetro». [5]
Nós não começámos o fogo, mas temos a responsabilidade de o controlar e extinguir, sob pena de sermos queimados.
[1] https://www.publico.pt/2024/02/03/politica/noticia/sinapol-admite-forte-...
[2] https://www.visionofhumanity.org/wp-content/uploads/2023/06/GPI-2023-Web...
[3] https://fumaca.pt/psp-agride-jornalistas-do-fumaca-e-setenta-e-quatro/
[4] https://www.publico.pt/2024/02/16/politica/noticia/debates-televisivos-e...
[5] https://twitter.com/joaobernarciso/status/1755292164400050184