Escrevo estas linhas na sequência das regionais passadas, enquanto açoriano e candidato. Julgo que, mais, estou em crer que estas linhas possam servir de reflexão para qualquer pessoa que se interessar pelo assunto.
Um dado que me parece importante é notar a força que alternativas aos dois principais partidos têm conseguido. Em 2012 eram 14594 votos, em 2016 eram 16186, em 2020 eram 24348 e em 2024 são 21519. Que se note que em 2020 estão-se a incluir os votos no CDS e PPM, pelo que o número cresceu. Claro que se pode argumentar que este aumento é natural, porque há diminuição da abstenção. Bem, antes de mais a abstenção só diminuiu em 2020 e em 2024, além de que podia diminuir e as pessoas optarem por votar só nos dois grandes. Há, efetivamente, um desconforto com o estado de coisas que faz candidaturas alternativas a PS e PSD serem mais atrativas. Digo desconforto e não descrença, porque me parece que esta última se traduz na abstenção.
Esta aposta na alternativa resultou na pluralidade de termos 8 partidos na Assembleia. Isto é excelente porque permite: as alternativas terem um palco de afirmação, mas também de trabalho, podendo, mais do que falar, propor e votar. Nós podemos ver o que essas forças defendem e o que estão a fazer, tendo uma antevisão do que poderá ser o seu trabalho se chegarem ao executivo.
O grande desafio é se conseguir eleger projetos alternativos por círculos eleitorais mais reduzidos: 2 ilhas elegem 4 deputados cada, 4 elegem 3, 1 elege 2. Se na Terceira com 10 já é difícil e em São Miguel com 20 são duas forças alternativas, que, no máximo conseguem eleição simultânea, não é certamente fácil termos uma alternativa com um crescimento que rompa com o bipartidarismo. Não obstante, esta conclusão tem mais de mentalidade e cultura do que de pragmatismo. O nosso sistema eleitoral, com a compensação, torna-nos num exemplo de sucesso no que concerne ao respeito pela percentagem de votos na respetiva percentagem de mandatos. Tem em conta que são 57 deputados, um partido conseguir superar 1,75% regionalmente deve garantir a eleição de um deputado (3,5% de dois, 7% de 4,…). Por vezes não será perfeito, por dinâmicas específicas de cada eleição, mas está sempre próximo dessa justiça – até porque o método de Hondt depende muito do resultado do vencedor. Isto quer dizer que, em qualquer ilha, ao se votar num partido está a contribuir para ele estar representado, mesmo que não eleja por aquela ilha. Decerto que se o conhecimento do sistema eleitoral fosse mais generalizado, teríamos mais pessoas a apostarem em alternativas mais próximas da sua identificação pessoal.
Além disso, e que particularmente afeta ilhas pequenas, está o derrotismo: se se acha que não elege, não se vota. Os votos na alternativa têm aumentado, mas nessas ilhas é são precisos pelo menos 20% para a eleição. Muitas vezes me disseram para ir para um partido dos grandes, se quisesse realmente fazer algo pela minha terra. Faz algum sentido ir para um partido com ideais que não me revejo para ter a oportunidade de trabalhar pela nossa terra? Nos Açores há muita gente extremamente capaz e séria que é fiel a si própria e, por isso, se submete à frustração partir mais pedra que o vizinho e, provavelmente, não ter resultados. Uma em cada quatro horas que estive acordado desde o início de dezembro dediquei-as à campanha, as ações e divulgações do programa. Eu e muitos outros. 1+1 são 2, as urnas começam vazias. Pior do que isto é ver que alternativas sem seriedade, vazias, sem trabalho, simplesmente à base do ódio (às pessoas e ao mundo), conseguem mobilizar mais.