Às vezes a realidade é capaz de superar a ficção e o que parece impossível, acontece. Há uns dias descobri que existem pessoas que realmente leem os meus textos de opinião e, pasme-se, gostam minimamente. Estava eu a ver a cascata do Aveiro, na Maia, em Santa Maria e aproximou-se um emigrante da nossa família. Entre as típicas conversas sobre parentescos, o senhor Manuel pergunta se eram relacionados com o Pedro Amaral. Como ele disse que lia estes textos, logo lhe pedi desculpa pelo dinheiro que tinha gastado, mas ele não parecia particularmente arrependido. Ficámos a falar um pouco e então aquele homem que soma 72 verões expôs a sua visão sobre o aproveitamento turístico dos Açores.
O caso é muito simples: nós acabamos por ficarmos a agarrados a certos bastiões, tipos populares de turismo, como o balnear ou o de natureza. Olhamos para as nossas ilhas e vemos algo que facilmente toda a gente vê, as nossas praias, por exemplo, as nossas piscinas, as nossas possas. Esta é a nossa riqueza. Olhando um pouco mais atentamente vemos os trilhos, desvendamos caminhos por entre a nossa natureza, mostrando a fauna e flora açorianas. Essa também é a nossa riqueza. Mas também temos as jamantas, os priolos,… São também a nossa riqueza. São níveis que damos em direção a uma maior singularidade dos Açores. O ponto que este emigrante defendia, era a necessidade de olharmos para as nossas ilhas, percebermos o que é único aqui e tentar promover de forma sustentável, oferecendo bons motivos para nos visitarem ao invés de outros locais. Este é um conceito que evidentemente parece óbvio, no entanto às vezes permanecemos naquilo que se considera estável, no que consideramos garantido e confortável. Sabemos que praia vende, por exemplo. Um cozido das Furnas já podia parecer uma ideia duvidosa, se não soubéssemos o que sabemos hoje sobre o seu sucesso.
Ao fim e ao cabo, esta noção de busca pelas nossas riquezas, daquelas que nos ligam a outros pontos geográficos, àquelas que nos distinguem singularmente, é algo que deve ser transversal a qualquer área e não só à vertente turística. A nossa comunidade depende de recursos geológicos e biológicos, desde a construção à comida, com incursões na medicina e no entretenimento. Percebermos com o que contamos é de extrema importância para nós próprios. Podermos pegar na nossa matérias-primas e trabalhá-las constitui um trunfo que nos confere um elevado poder sobre o nosso conhecimento, inovação e desafogo económico. Nós temos uma autonomia político-administrativa que nos dá uma margem de manobra assinalável sobre a forma como podemos gerir aquilo com que nos deparamos no nosso território.
A este último parágrafo podíamos abrir uma exceção que não é mero pormenor, o nosso mar. Continua a ser necessária uma revisão à Lei do Mar que dê o poder inequívoco sobre estes temas aos Açores.
Grande parte deste trabalho de descobrirmos aquilo que a nossa terra nos reserva, sejam algas, sejam tubarões-baleia, corresponde a um árduo labor científico. É importantíssimo termos uma academia açoriana enrobustecida para dar esta resposta. Muitos desafios se adensam por sermos um arquipélago, sendo o capital um recurso limitado. Contudo, este é um esforço que dará frutos mais tarde. O nosso poder executivo deve ter um papel preponderante em criar sinergias neste sentido.
Se queremos que os Açores sejam o paraíso sustentável e rico que todos ambicionamos, é preciso sermos ousados e desvendar os segredos aqui escondidos.