O Bloco de Esquerda Açores condena as declarações de Nuno Melo, ministro da Defesa Nacional e presidente do CDS, que desvalorizou uma tese de doutoramento da Universidade de Coimbra sobre a contaminação na Base das Lajes, afirmando que este tipo de trabalhos serve apenas para “consumo da comunicação social”. O ministro chegou ainda a sugerir que a investigação não teria validação por uma entidade pública certificada, ignorando que se trata de um doutoramento realizado numa universidade pública portuguesa e aprovado com distinção e louvor por um júri de especialistas.
Num Estado de direito democrático, os membros do Governo têm o dever de respeitar o conhecimento produzido pelas instituições científicas. O que não quer dizer que qualquer tese de doutoramento deva ser encarada como continente de uma verdade absoluta, mas sim que se deve reconhecer que o trabalho académico obedece a critérios rigorosos de investigação, avaliação e escrutínio que lhe conferem credibilidade e utilidade para o interesse público.
Aliás, o próprio investigador, Félix Rodrigues, tem sido intelectualmente irrepreensível ao sublinhar as limitações das conclusões do seu trabalho. Nunca afirmou ter demonstrado uma relação inequívoca entre a contaminação e a incidência de doença. Pelo contrário, defendeu sempre que os resultados constituem um novo elemento científico que reforça a necessidade de aprofundar a investigação, através de estudos epidemiológicos e de outras abordagens complementares.
É precisamente essa a atitude que deve ser valorizada: uma ciência prudente, transparente e rigorosa, que avança por etapas. Na perspetiva do tema, esta tese de doutoramento não representa um ponto de chegada. É, isso sim, um ponto de partida para novas investigações. O que é inaceitável é que um membro do Governo procure desacreditar esse processo em vez de promover mais conhecimento sobre um problema de saúde pública que há décadas preocupa a população da Praia da Vitória.
O Bloco de Esquerda tem sido coerente nesta matéria. Na sequência das recentes revelações sobre a contaminação nas Lajes, questionou os ministérios da Defesa, da Saúde e da Educação, exigindo esclarecimentos sobre a interrupção dos trabalhos de mitigação ambiental, sobre o bloqueio de uma investigação relativa à incidência de cancro na Praia da Vitória e sobre a necessidade de realizar um estudo epidemiológico oficial que permita conhecer a verdadeira dimensão do problema.
Também o Bloco Açores, através do deputado António Lima apresentou requerimentos ao Governo Regional exigindo explicações sobre a interrupção dos trabalhos de descontaminação, sobre a recusa de acesso a dados de saúde relacionados com esta contaminação e sobre as denúncias de interferência política numa investigação científica.
Perante um problema desta gravidade, o país precisa de mais investigação, mais transparência e mais responsabilidade política — ataques à ciência e desvalorização do trabalho desenvolvido pelas universidades públicas portuguesas é o caminho totalmente inverso.
O respeito pelas populações afetadas exige que todas as evidências científicas sejam analisadas com seriedade e que sejam promovidos os estudos necessários para apurar a dimensão do problema e proteger a saúde pública.