António Lima diz que o Governo Regional tem de garantir o pagamento às IPSS para que possam pagar já o subsídio de natal a todos os trabalhadores. Tendo em conta que o presidente do governo regional assumiu que o ISSA tem tesouraria disponível, a Região deve avançar já com os valores em atraso. António Lima recordou que o governo se substituiu ao Governo da República e aos EUA quando os trabalhadores da Base das Lajes tinham salários em atraso.
Hoje, no encerramento da quarta edição das conferências Zuraida Soares, na ilha Terceira, o coordenador do Bloco de Esquerda afirmou que “não é admissível que chegue ao natal e centenas de trabalhadores fiquem sem o subsídio a que têm direito, principalmente quando o dinheiro necessário está na conta do ISSA”.
E essa garantia foi dada ontem pelo presidente do governo regional, após uma reunião com o ISSA. Mas José Manuel Bolieiro diz que está “de mãos atadas”.
“Se for preciso darmos uma ajuda, vamos ao Palácio de Santana e ajudamos a desamarrar os braços de José Manuel Bolieiro”, afirmou António Lima, lembrando que, recentemente, quando os trabalhadores da Base das Lajes ficaram com salários em atraso devido ao “shutdown” da administração norte-americana, o governo também só agiu depois de o Bloco levar o assunto ao parlamento.
“O Governo Regional esteve bem, agiu tarde, mas esteve bem”, por isso, António Lima quer ver agora a mesma atitude, com a Região adiantar o dinheiro a que estes trabalhadores têm direito, e posteriormente fazer contas com a República para acertar a tesouraria entre a Segurança Social e o ISSA.
“Há um problema, que ainda não foi bem explicado, entre o Governo Regional e o Governo da República sobre quem suporta os custos com o setor social nos Açores, mas esse problema não diz respeito aos trabalhadores”, por isso, “não podem ser os trabalhadores a arcar com a responsabilidade das disputas entre governos”, apontou o deputado do Bloco.
António Lima, encerrou a sua intervenção lembrando Zuraida Soares, figura incontornável da história do Bloco de Esquerda nos Açores: “Tenho a certeza de que, se estivesse aqui hoje, a Zuraida estaria a dizer o mesmo: que o governo tem de pagar o que deve, porque ninguém pode ficar este natal sem o rendimento a que tem direito”.
As “Conferências Zuraida Soares” são um encontro anual que pretende criar um espaço de debate sobre grandes temas da atualidade, com destaque para questões relacionadas com Democracia, Liberdade e Direitos Humanos.
“Os Açores, a Europa e a América de Trump”
Jornalista, investigador e autor de várias obras relacionadas com a presença norte-americana na Base das Lajes, Armando Mendes, um dos oradores no painel sobre o papel da Região no atual contexto geopolítico, salientou a alteração na política externa dos EUA, que passa “por tratar do seu quintal”, e neste contexto “a sua defesa começa, a Oeste no Havai, e Este nos Açores”. Por isso, o investigador assegura que a importância geoestratégica dos Açores, e da Base das Lajes, se mantém muito relevante.
Luís Fazenda, também orador neste painel sobre geopolítica, referiu que a nova política dos EUA passa por defender que “cada potência pode defender os seus interesses através da imposição da força na sua zona de influência".
Neste contexto, o antigo deputado do Bloco e vice-presidente da Assembleia da República alerta que, com Trump, a nova perspetiva dos EUA em relação à presença na Base das Lajes deixou de ser o que é Portugal e os Açores vão ganhar com a presença militar norte-americana, mas qual o preço a pagar por Portugal e pelos Açores para garantir a segurança por parte dos EUA.
Luís Fazenda acredita que Portugal e os Açores não podem desistir da ideia de aproveitar o potencial dos Açores para uma aposta na ciência, no mar e na aviação civil, por exemplo, mas reconhece que o atual contexto internacional não facilita este caminho.
No início da sua intervenção, Luís Fazenda recordou Zuraida Soares como “uma mulher de grande coragem” e Armando Mendes salientou a sua “capacidade de dialogar mesmo com quem não concordava”.
“Esta política não é para jovens?”
Pedro Amaral, Marisa Cota e Daniela Martins foram os jovens ativistas convidados a partilhar as suas experiências de participação cívica e política.
Pedro Amaral salientou que há muitas formas de participação ativa na construção da sociedade, através do associativismo, por exemplo, mas destacou a importância dos partidos como forma de conseguir introduzir mudanças concretas, porque são os partidos que estão representados nos parlamentos.
Quanto à participação dos jovens na política, assinalou a contradição de que são muitas vezes alvo e que o próprio sentiu quando foi candidato em atos eleitorais, e que oscila entre a condescendência e hipocrisia: “Quando um jovem participa, as pessoas dizem que não tem experiência”, mas se “os jovens não participam, as pessoas lamentam-se porque os jovens não querem saber da política”.
Marisa Cota defendeu que é preciso “dar mais voz aos jovens” e salientou o papel importante que os jovens têm tido em chamar a atenção para a necessidade de responder com medidas concretas à crise climática.
Atualmente, Marisa Cota está empenhada também no projeto “Thousand Madleens to Gaza”, que pretende organizar uma nova flotilha para quebrar o cerco ilegal de Israel à Palestina.
Daniela Martins, por sua vez, alertou que é necessário “combater a indiferença dos jovens em relação à política” e salientou a importância de haver espaços, como este painel, para os jovens participarem e se sentirem valorizados.