A tática seguida pelo PSD e pela direita para lidar com a extrema-direita apresenta diferentes versões com o mesmo resultado: a direita entra numa dança com a extrema-direita e assume gradualmente o seu programa.
José Manuel Bolieiro foi o responsável em Portugal pela primeira dança concedida à extrema-direita em 2020. Bolieiro fica na história, mas não pelos bons motivos.
Sabemos como acabou essa legislatura: com um governo regional a cair com a cínica abstenção do parceiro CH, sem que o PSD tivesse apontado qualquer responsabilidade ao antigo parceiro. O objetivo era claro: não hostilizar o CH para formar novo governo com o seu apoio.
Assim aconteceu: programa de governo e dois orçamentos aprovados pelo novo parceiro. Propostas da oposição rejeitadas por essa maioria absoluta bota-abaixo que vota em sintonia, como uma verdadeira coligação.
No governo da república, Luís Montenegro chegou a primeiro-ministro com uma estratégia aparentemente contrária à de Bolieiro: “Não é não!”. À dança de Bolieiro e do PSD/Açores, Montenegro respondeu dizendo que não dançaria aquela música. Hoje o que se constata é que Montenegro e o governo da república da AD não têm acordos com o CH mas absorvem cada vez mais a sua política.
São exemplos disso a política de imigração, o discurso securitário e a utilização das forças de segurança para fins de propaganda política. Mesmo sem dança e sem acordos, mesmo com o “não é não”, a assunção da agenda da extrema-direita pela AD é clara. A música é outra, mas não há dúvidas de que dançam.
Por cá, nos Açores, de forma cada vez mais assumida, o PSD e a restante direita, não só assumem a extrema-direita como parceiro, como também integram a sua agenda na política do governo.
O governo regional assume que as crianças filhas de desempregados são discriminadas no acesso à creche. Não restam dúvidas, a coligação que governa os Açores já inclui o Chega.
A direita abdica de princípios para manter o poder, mas também porque acha que é assim que trava o crescimento da extrema-direita. Se olhassem para o que acontece por esse mundo fora, perceberiam que estão apenas a validar a sua política e a transformarem-se numa cópia desta.