Tomou posse o novo governo, presidido pelo Dr. Vasco Cordeiro. Na minha anterior reflexão tive oportunidade de lhe endereçar o desejo duma boa governação, para bem dos Açores e de quem cá vive e trabalha. Teci, nesta coluna, determinadas considerações e manifestei-lhe algumas preocupações sobre a nossa Ilha do Faial.
No entanto, sendo um acérrimo opositor a bairrismos doentios, não quero ficar olhando para o meu umbigo. Quero partilhar, também, as minhas preocupações relativamente às opções políticas que se desenham para a nossa Região.
Assisti, em primeira mão, ao seu discurso de tomada de posse e, em boa verdade, gostei de grande parte das intenções que transmitiu e da firmeza expressa em defesa duma política que, fazendo uso do nosso Estatuto, prometia um corte com os desmandos do governo da República, austero e arrogante para com quem produz e cúmplice para com quem rouba o fruto do trabalho dos portugueses.
Apreciei a frontalidade dos recados enviados através do ministro Relvas a quem tive o prazer de não cumprimentar, mas, antes, ignorar e votar ao desprezo. Era, então, caso para se pensar: “Temos homem”. “Agora sim, vamos dar a volta a isto”.
Esperava-se, assim, na proposta de Programa de Governo, a concretização das intenções expressas no entusiasmante discurso de tomada de posse do seu novo Presidente. Mas, afinal, o tão ansiado programa não passa da continuação do rol de boas intenções, entremeado, agora, com algumas preocupantes derivas.
A proposta de programa do XI Governo da Região Autónoma dos Açores refere na página 179:"Os produtos açorianos, quer sejam os tradicionais bens transacionáveis, como a carne, os laticínios ou o atum, entre outros, quer sejam os serviços, como o turismo,diferenciam-se dos demais concorrentes diretos por serem oriundos de uma região com uma pegada ecológica de elevado valor ambiental, de uma região livre de produtos geneticamente modificados."
Reconhecendo, o Governo, a importância que a nossa agricultura terá no desenvolvimento e autossuficiência da nossa Região, era de esperar a divulgação de medidas concretas, como uma proposta de alteração da legislação que considere os Açores uma Região inequivocamente livre de transgénicos, clarificando um diploma que apenas tenta “tapar o sol com uma peneira”.
Os nossos setores primários tradicionais estão em perigo, e as políticas da União Europeia ameaçam agravar a nossa débil economia. Também esperava, sinceramente, a revelação de medidas concretas para uma eficaz salvaguarda da nossa agricultura, para as pescas e em defesa dos nossos recursos naturais. É que, como o senhor sabe, só “de boas intenções está o inferno cheio”.
Gostaria de ter lido um parágrafo sobre a forma como irá prevenir as escandalosas derrapagens em obras públicas, e apreciaria, deveras, a revelação de medidas claras que impedissem a usurpação de recursos financeiros em favor de acionistas privados de empresas com capital público.
Não esqueça, ainda, senhor Presidente, que se contam pelos dedos as empresas da Região com mais de cem trabalhadores, mas que são às centenas, talvez milhares, as micro e pequenas empresas que empregam entre três a dez e que evitam o aumento atroz do desemprego. São estas que necessitam de apoio efetivo, mas, ao longo das 203 páginas do seu Programa, não se encontram propostas de medidas concretas de combate eficaz ao desemprego e à dinamização da economia. Não sei se “… porque o pai não quer”, se “… lhe dói a barriga”, ou, talvez, “… porque joga o Benfica”. O certo é que, tal como o voo do pombo, este governo, parte a alta velocidade, determinado e cheio de intenções, mas, rapidamente, começa a arrepiar o caminho.