Estamos a poucos dias dos 50 anos do 25 de abril. Arrepia-me escrever estas palavras, por sentir a vertigem da sorte que tenho: estou vivo e faço-o num espaço e tempo onde a Liberdade se escreve com um éle maiúsculo [1]. Nunca conheci a sua ausência, mas os meus avós sim. Sentiam-na não só pelos constrangimentos à expressão do pensamento, como também na falta da «paz, pão, habitação, saúde e educação» [2].
A melhoria de condições de vida é transversal às várias dimensões, o que não significa que estejamos no ponto ótimo: é necessário melhorar, continuamente, sempre a tentar cumprir abril, uma esperança que alumia o caminho.
Não obstante, o nosso mundo hoje enfrenta grandes desafios, crises que nos servem de desafios, à nossa capacidade de superação e engenho, mas que também custam vidas. As crises climática, social (desigualdades), migratória, geopolítica,.. intersetam-se no nosso tempo e o 25 de abril tem de lhes fazer frente. O seu grande contributo reside em nos colocar a pensar nas grandes questões: a nossa forma de fazer política, de agir socialmente, tem sido a concatenação de compromissos em áreas circunscritas, impedindo qualquer discussão estrutural. Como é possível pensar o futuro sem discorrermos sobre o que é a vida boa? Perguntava ainda outro dia a professora Paula Pereira. Tem toda a razão.
Deixarmos cair a radicalidade do pensamento é o que leva a que as pessoas sejam suscetíveis a preferir tecnocracias e autocracias, como podemos ver na sondagem que saiu em parceria com o Público [3]. As pessoas, sentindo tempos de incerteza, buscam a segurança num poder central, num foco único capaz de garantir uma verdade e um rumo. Ainda para mais quando temos a corrupção e as questões de criminalidade a serem percecionadas como as piores áreas, segundo a sondagem realizada em parceria com o Expresso [4]. É terreno fértil para quem se quer afirmar como um messias. Queremos olhar o futuro, melhorando o presente, mas não podemos esquecer o passado. Preservarmos a memória é essencial.
Aquilo que importa é perceber que «25 de abril» é um gerúndio, um presente em construção. «25 de abril» é o respeito pela dignidade humana, que compreende uma vida boa, tal como o pensamento crítico, uma atitude inconformada que aponta sempre à melhoria do presente e, além de o pensar, executa. É verdade que estão a sair da toca [5], que se normaliza o ódio e a ignorância, mas somos, democratas, muitos mais. Sejamos capazes de mostrar isso, não nos demitirmos da nossa parte. Se isso implica ir para a rua participar na marcha do 25 de abril, que seja, se for ir a uma Assembleia Municipal tomar palavra no período do público, que seja, se isso for assinar petições, que seja, se isso for ter de explicar àquele familiar ou amigo que o Estado Novo não são boas memórias, que seja, se for explicar que os direitos não são obrigações, mas possibilidades de existência, que seja, se for distribuir panfletos, que seja. Cada um de nós tem cabeça, consegue perceber onde melhor encaixa. Celebremos, dancemos, cantemos, e garantamos que deixamos ao outro, nosso contemporâneo ou vindouro, um lugar para se juntar à celebração. Viva ao 25 de abril!
[1] https://freedomhouse.org/country/portugal/freedom-world/2024
[2] https://www.youtube.com/watch?v=HVCt3RGcjRQ&ab_channel=SergioGodinhoVEVO
[4] https://sondagens-ics-ul.iscte-iul.pt/wp-content/uploads/2024/04/Estudo-ICS_ISCTE_25A.pdf