No início do mês de setembro, uma nova empresa de transporte passou a prestar o serviço de transportes coletivos em São Miguel. Trata-se de um serviço público que é prestado por uma empresa privada, a quem a Região paga 44,3 milhões de euros ao longo de 10 anos.
O serviço prestado pela Vale do Ave, que o Governo Regional classificou de “transformação estrutural” e “mudança de paradigma”, dificilmente poderia ter começado pior.
Acumularam-se nas primeiras semanas os relatos de problemas, sem que o Governo Regional tenha dado sinal de que estaria a fiscalizar o cumprimento das obrigações da empresa Vale do Ave.
Há inúmeros relatos de passageiros que ficaram na paragem porque o autocarro não passou, tendo estes de se deslocar de táxi;
Há relatos de crianças que chegaram tarde à escola e outras que terão sido deixadas na escola ou a meio do percurso devido à inadequação do percurso;
Há relatos e imagens de cadeiras dos autocarros danificadas, sem condições de circulação, longe de serem os “autocarros novos” prometidos;
Há relatos de passageiros com passes mensais pagos que não foram aceites no autocarro.
A falta de articulação do transporte com as escolas era esperada. Desde agosto que havia alertas sobre isso. O Bloco questionou o governo a 25 de agosto, mas, mesmo assim, o transporte falhou em muitas escolas.
Este caos nos transportes não pode continuar e não poderia ter acontecido. O que aconteceu foi muito para além de uma perturbação inicial: foi um autêntico caos. E, perante o caos, o Governo Regional e a Secretária Regional da Mobilidade, Berta Cabral, assobiaram para o lado, como se nada tivessem a ver com o assunto.
Passámos de um serviço parado no tempo, com uma grande necessidade de atualização e modernização, para um serviço que, até agora, gerou transtorno e prejuízo para milhares de pessoas em São Miguel.
Não era preciso inventar a roda. Era necessário atualizar horários, rotas e criar um transporte por zonas, com passes gratuitos ou a muito baixo preço, para responder às necessidades atuais de mobilidade.
Se a empresa que presta o serviço de transporte público em São Miguel fosse uma empresa pública, os que exigem a privatização de tudo e mais alguma coisa já teriam surgido a dizer que um privado faria muito melhor.
Fica claro agora que as empresas privadas são capazes de fazer muito pior do que uma empresa pública? Provavelmente, este nível de disrupção no serviço nunca seria possível se fosse prestado por uma empresa pública de transportes. E temos vários exemplos disso, no ar e no mar.