O consumo da cultura

Estamos cada vez mais próximos do Carnaval. Ao pensarmos nas danças e nos teatros, temos provavelmente um dos expoentes culturais açorianos, que faz o povo abraçar as manifestações culturais. Existem, claro, outros momentos, mas aproveita este para trazer à baila um tema muito importante: o consumo de cultura. Foi publicado um estudo encomendado pela Fundação Calouste Gulbenkian sobre as práticas culturais dos portugueses, tendo sido o período da recolha de dados no último trimestre de 2020, num universo de 2000 entrevistas.

Desde logo, nota-se que 61% dos inquiridos afirmou não ter lido um único livro em 2020, sendo que a leitura digital corresponde a uma fração diminuta da amostra.

Algo transversal às várias formas de consumo de cultura é o facto de se alguém tiver mais rendimentos e um maior grau académico, então a probabilidade de estar mais propenso a essas atividades é maior. Isto revela-nos desde logo o facto de que existe uma barreira económica que afasta uma faixa de portugueses das atividades culturais.

No entanto o custo por si só não constitui um problema. Ele está também presente na diminuta disponibilidade mental que a maioria dos portugueses tem para, findo o dia de trabalho, se dedicar a uma atividade cultural. Depois de se estar a trabalhar horas e horas, provavelmente, mais as tarefas domésticas, a exaustão toma o controlo. Imagine-se o exemplo de uma série: a pessoa tem os vários episódios acessíveis, por exemplo, em plataformas como a RTP Play, não teve custos além da internet, no entanto o que acontece muitas vezes é que aquela série acaba adiada, justamente porque a pessoa quer simplesmente descansar, contrair, algo extremamente leve.

Nos Açores existe ainda outra dificuldade: a dispersão geográfica com um mar a separar os rochedos. Quando falamos de atividades como teatros, dança,… sabemos que eles acabam por ser mais raros quanto mais pequena é a ilha. Eventualmente surgem esforços locais para dinamização artística, mas sem um hábito de consumo torna-se difícil essa implantação de grupos amadores. São necessários um investimento e uma vontade política que permitam valorizar a cultura.

Mas lá está: podemos andar aqui a inventar apoios, espetáculos, incentivos, divulgações,… mas se as pessoas continuarem a viver para trabalhar, se uma parte considerável das pessoas vive norteada pela necessidade de contar os tostões e chegar ao fim do mês com as dívidas controladas, então pouca será a disponibilidade para abarcar em atividades culturais que servem de entretimento. Muito menos se terá sucesso na formação de grupos amadores da prática artística.

No meio desta discussão não podemos duvidar da importância da cultura. De como isso justifica que este setor seja ele próprio uma fonte de empregabilidade, sendo esta muitas vezes precária. Temos de valorizar quem faz cultura, o amadorismo é uma prática importante, mas não nos podemos esquecer dos profissionais.

Permitam-me terminar com a RTP Play. Podem aceder através desta hiperligação: rtp.pt/play. Trata-se de um espaço onde se podem encontrar filmes, séries, noticiários, podcasts, teatros, entrevistas, documentários,… Material produzido pela RTP ou emitido e com direitos para temporariamente estar disponível online, nesse serviço que se chama streaming. Existem conteúdos de grande qualidade produzidos em Portugal e a RTP Play é, portanto, um serviço público, a custo zero, de grande interesse em ser explorado.