O controlo público e democrático dos setores estratégicos

Parece que há quem esteja preocupado com a “espanholização” da banca portuguesa e pareça favorecer uma mais equilibrada distribuição do setor financeiro. Por equilibrada, entenda-se entre Espanha, Angola, China e EUA com alguns lugares para os banqueiros nacionais, os mesmos que tão bons dividendos receberam da banca durante vários anos.

Mas haverá algum equilíbrio em entregar a banca portuguesa ao sistema financeiro de vários países com interesses que serão tudo menos coincidentes com os da grande maioria da população portuguesa? O que queremos e precisamos é de uma banca estável e confiável ao serviço do investimento e da criação de emprego, o que não são seguramente objetivos compatíveis com os do capital financeiro internacional nem sequer da burguesia nacional, como ficou demonstrado depois desta ter tomado posse da banca portuguesa e a ter deixado no estado em que está.

Os mesmos que demonstram grande preocupação com a “espanholização” de um setor não se mostraram particularmente preocupados com a entrega do setor energético à China, na sequência da privatização da EDP e da REN. E que dizer da privatização doutro monopólio que são os aeroportos nacionais, entregues à Vinci a quem saiu a lotaria de ficar com o lucrativo negócio da ANA? E as infraestruturas de telecomunicações da PT, que detém os essenciais e únicos cabos submarinos de fibra ótica, privatizada e quase destruída pela ganância de gestores e acionistas corruptos e vendida à Altice?

Vale a pena falar ainda da obstinada subserviência aos EUA do Governo português, do Governo regional dos Açores e de tantas instituições e partidos políticos que teimam em declarar-se os melhores amigos da administração norte-americana e totalmente recetivos a apanhar qualquer migalha que esta atire para a pista das Lajes, na esperança que esta seja suficiente para minimizar a crise gerada por esta mesma administração norte-americana. O problema é que acabaram as migalhas, dizem os EUA e agora todos querem alternativas.

Todas as situações descritas, sendo aparentemente distintas, têm um fio condutor: dizem respeito a instituições ou infraestruturas fundamentais para o nosso desenvolvimento e como tal têm de estar sobre o controlo democrático sob pena de abdicarmos de instrumentos de soberania para implementar políticas relevantes de investimento e criação de emprego. Entregar a espinha dorsal de um país aos interesses do capital nacional ou estrangeiro, ou colocá-la ao serviço dos interesses militaristas de uma potência estrangeira é abdicar de ter um projeto de desenvolvimento, é abdicar de um país com futuro.