2026 está no horizonte. 2025 em breve deixará de ser escrito caligraficamente para se registar a data dos apontamentos, cristalizando-se como mais um ano completo em informação sobre as ações humanas, os desenvolvimentos ambientais,… Cristalizando-se como quem diz, «a História é escrita pelos vencedores». Considerações à parte, falemos daquilo que nos apoquenta nestes dias: o que queremos que 2026 seja.
As resoluções e desejos abundam: resoluções sobre as nossas ações, desejos sobre o espírito do mundo. No que às resoluções concerne, de facto, esta é uma boa altura, como, na verdade, qualquer outra, para nos perguntarmos sobre quem fomos e quem queremos ser. Será que as nossas ações são condizentes com os nossos valores? Essa dissonância depende de nós ou é condicionada por outras condições (tempo*, dinheiro, saúde,…)? Será que temos os nossos valores estabelecidos sequer? Estarão bem fundamentados? Confesso um receio que tenho: as resoluções serem vazias justamente por não responderem a estas perguntas e que isso leve a que as pessoas se sintam impotentes. E a impotência não se limita às resoluções: quando assumimos como desejos tudo o que se traduza numa melhoria do mundo (mesmo as mais vagas como «paz» ou «felicidade»), uma vez que se corre o risco de nos excluirmos do papel que podemos ter na ajuda para a sua concretização. Não estou a ser idealista, a nossa comunidade faz parte do mundo, não temos de ser mártires ou heróis, basta sermos pessoas decentes no nosso quotidiano e que usem parte do seu tempo para a sua comunidade.
Dito isto, gostava de aqui deixar um desejo – ciente do meu papel na sua concretização, que passa, justamente, por este artigo. O meu desejo é que haja mais espírito crítico. Bem sei que é uma palavra gasta, por isso mesmo é importante defendê-la, não deixar que lhe esvaziem o significado. Ter espírito crítico é questionar, é pensar estruturalmente, radicalmente, ir
à raiz. Entre outos, identifico dois obstáculos à cultura de um espírito crítico: por um lado, confunde-se espírito crítico com depreciação; por outro, é muito fácil convencermo-nos que temos empreendemos espírito crítico, quando não o fazemos.
A crítica não é estar do contra: é perceber os limites e, nesse sentido, estabelecer relações e apontar caminhos. É por isso que qualquer crítica deve ser construtiva e é por isso que não podemos confundir ser construtivo com ser conformista. Com isto também não quero apregoar que devemos ser desconfiados de tudo, antes que devemos ser exigentes. Dá trabalho, dá, porque refletir não é só emitir palavras.
Muitas vezes baralha-se opiniões com posições, uma emissão de palavras com uma tese fundamentada; levando a que muitos se julguem a última bolacha do pacote, convencidos da sua razão. O corolário do espírito crítico é a humildade intelectual, de facto, ele sem ela não é ninguém. A aproximação à verdade não se faz com verdades absolutas, mas da interseção da pluralidade de verdades relativas.
Pensar pela nossa cabeça é usar o que melhor temos para melhorar as nossas vidas e as dos outros, façamo-lo bem.
* Julgo que já aqui escrevi sobre como a falta de tempo deve ser tida como falta de disponibilidade, ou energia, mental, na medida em que a sociedade em que vivemos nos esgota quer seja no esforço que empreendemos no quotidiano, quer seja no que nos é imposto de expectativa, tudo isto num meio de assoberbamento de informação – estímulos contantes que nos chegam dos ecrãs, das publicidades, dos fones,… É esta exaustão que nos tira tempo, porque qualquer pouco tempo que temos, é para tentar não enlouquecer. Olha, que bela resolução de ano novo: fazermos o possível para mudar esta sociedade que nos esgota.