No outro dia, fui convidado a responder a uma entrevista pelo jornal Diário Insular sobre drogas sintéticas. Penso fazer sentido tentar explorar um pouco melhor as ideias enunciadas.
A visibilidade é fundamental para resolver problemas, mas muitas vezes as mudanças são apenas superficiais, sem abordar as raízes do problema. Isso é um grande desafio nos Açores, e além, devido à falta de reforma estrutural. Essa falta de mudança ocorre tanto aqui como no país inteiro, porque exigiria uma transformação nas bases do sistema, enfrentando, efetivamente, as desigualdades impostas por uma elite. Não se trata de alcançar uma igualdade absoluta de circunstâncias, mas de humanizar as desigualdades, garantindo condições de vida satisfatórias para todos e eliminando a exploração no trabalho e na discriminação de identidade. Esse projeto não tem como objetivo dizimar as elites que nos governam, mas sim esvaziar o seu poder. A problemática da droga, por várias vertentes (como económica ou moral), convém a um conjunto de oligarcas. Felizmente, temos acesso ao voto e, se desejarmos, podemos confrontar essas oligarquias e exigir que o poder político implemente essas mudanças. É necessário força e participação para enfrentar inimigos poderosos.
O consumo de drogas é generalizado e afeta diversos grupos demográficos. No caso das drogas sintéticas, devido ao seu custo mais baixo, o grupo mais afetado, como já foi estudado em outros lugares, provavelmente são pessoas com menos recursos económicos que as usam para satisfazer a sua dependência. Ela faz com que ignorem os danos causados por essas drogas, que, na verdade, são misturas com lixívia, combustível, inseticidas, entre outros.
Uruguai e Canadá são exemplos de países que legalizaram as drogas. Apesar de ser uma proposta contraintuitiva, o seu sucesso é evidente. Ao existir uma alternativa legal, as pessoas podem consumir produtos regulamentados e controlados pelo Estado. A redução do estigma em relação aos utilizadores permite eliminar tabus e discutir abertamente o assunto, seja em ambientes hospitalares ou em casa.
Se proibíssemos o álcool e o tabaco, o que aconteceria? Seria melhor termos pessoas com graves problemas devido ao consumo de uma bebida alcoólica que contém lixívia, sem nenhum controlo? Vamos deixar o moralismo de lado e focar em resolver o problema.
É importante lembrar que a legalização das drogas não significa uma promoção do consumo indiscriminado, mas sim uma abordagem realista para lidar com uma questão complexa. Ao legalizar e regular a venda dessas substâncias, é possível estabelecer limites de idade, fornecer educação sobre os riscos e oferecer tratamento e suporte adequados aos consumidores. Além disso, a legalização permite redirecionar recursos das atividades criminosas relacionadas ao tráfico de drogas para programas de prevenção e reabilitação.
No entanto, é importante ressaltar que a legalização por si só não resolve todos os problemas. É necessário um esforço conjunto para combater as causas subjacentes ao consumo de drogas, como a falta de oportunidades, a exclusão social e a falta de acesso a cuidados de saúde adequados. Isso requer investimentos em educação, programas de reintegração social e políticas públicas abrangentes que abordem as questões sociais e económicas que levam ao consumo de drogas.
Para lidar com os problemas existentes e alcançar soluções efetivas, é fundamental ter visibilidade e coragem para enfrentar os interesses estabelecidos.