O mercado das ilusões e a realidade em que vivemos

 

O governo da República e os seus parceiros da especulação financeira montaram uma operação cosmética de pura propaganda para presentear o clã dos “bons rapazes” a soldo dos mercados financeiros, num momento em que a evidência do rotundo falhanço da política de direita se revela avassaladora.

Quando todos os indicadores económicos revelam o seu agravamento em espiral recessiva; a dívida que já era astronómica aumentou; o PIB continua a afundar-se; o défice só ficou nos 5% devido à receita extraordinária da venda da ANA e aos cortes nos salários e pensões; o consumo atingiu mínimos históricos; e, até as exportações – a joia de que se vangloriava este governo – têm tendência para estagnar, o que poderá ter contribuído para esta encenação?

Com a credibilidade abaixo de zero e uma competência tecnocrata cada vez mais duvidosa e discutível havia a necessidade urgente e inadiável de apresentar uma medida que permitisse um fôlego a este governo. Não podemos esquecer que estamos em ano de eleições autárquicas e há muitos interesses obscuros a preservar nas hostes laranja. A onda de protestos vinda de barões do próprio PSD e o sentimento de revolta das populações do interior que se sentem desprezadas necessitavam de ter um paliativo.

Aproveitando a conjuntura favorável fomentada pelas medidas criadas “in extremis” pelo BCE para travar a crise do euro - com destaque para o programa de compra de dívida – apaziguaram os especuladores, garantindo-lhes que nenhum país cairá porque, em último recurso, o próprio BCE o financiará, o governo ensaiou uma extemporânea “ida aos mercados” porque sabia, de antemão, que a procura seria coroada de êxito.

Embalado por este “balão de oxigénio”, Passos Coelho desenvolveu no seu imaginário um ciclo de expansão económica apoiado no pedido de alargamento dos prazos do pagamento dos empréstimos que Gaspar protagonizara junto do Eurogrupo já com o propósito desta ação de cosmética mercantil, e encomenda aos seus “grilos falantes” - os mesmos que vomitavam veneno quando gente de bom senso exigia negociações com os nossos credores – a propaganda convicta desta boa nova.

O essencial volta a ficar ignorado: como é que vamos pagar este aumento de dívida se a economia está em progressiva recessão, as falências proliferam e o desemprego não para de crescer?

Como é que vamos gerar recursos que nos permitam sobreviver e equilibrar a nossa balança de pagamentos quando não existe investimento, os cortes salariais têm um efeito negativo na arrecadação de impostos e a diminuição de contribuições para a Segurança Social põe em perigo a sua sustentabilidade e a capacidade de ocorrer às situações de doença, às calamidades sociais e ao pagamento de pensões de reforma?

Para mim, esta ida aos mercados não passou dum embuste que apenas garante o pagamento de juros aos especuladores e mantem a ilusão de quem ainda dá o benefício da dúvida a esta política destruidora. Na prática, o aumento da dívida só nos empurra para um segundo resgate a breve trecho.

Foi neste enquadramento que decorreu o XV Congresso do PS-Açores e aguardámos, com alguma ansiedade, os discursos finais do Secretário-Geral do PS, António Seguro, e do Presidente do PS-Açores e do Governo Regional, Vasco Cordeiro, uma vez que tínhamos apreciado as intervenções iniciais de António Costa, presumível concorrente de António Seguro e Berto Messias, líder parlamentar do PS-Açores.

Para o mais incauto militante, enlevado pelo ambiente partidário, António Seguro poderá parecer “de alma e coração” com a política que o PS-Açores diz pretender implementar, mas as grandes diferenças residem nos pormenores. O seu discurso foi o mais vago possível, virado para as personalidades, num constante lamentar da não implementação das suas propostas pelo atual governo.

Elogiou a escolha do governo dos Açores pelo seu enfoque no mar de forma circunstancial, sem nada preconizar num assunto que é mais amplo, extravasa a Região e é crucial para o País. Definiu as suas prioridades de forma não coincidente com a política económica e social que Vasco Cordeiro anunciou.

Na sua ordem de prioridades vem, em primeiro lugar, a captação do investimento externo, sem dizer em quê, depois as exportações e as relações comerciais com países terceiros, tendo destacado os países da América do Sul e a China e só em último lugar refere a dinamização da economia como forma de ultrapassar a crise. São nestes pormenores que residem as grandes diferenças e consequentes incompatibilidades.

Vasco Cordeiro focou o seu discurso nas pessoas e colocou em primeiro lugar a dinamização dos sectores primários e o apoio ao investimento das pequenas empresas, sublinhou a intenção do reforço dos apoios sociais e o empenhamento na resolução dos problemas do nosso Serviço Regional de Saúde. Prometeu abertura e verdade. Pediu a colaboração de todos os sectores sociais e políticos da Região.

Aguardamos a concretização destas intenções, a implementação de medidas urgentes a curto prazo, de eficácia imediata, que travem o crescimento do desemprego e invertam a tendência recessiva da nossa economia. Esperamos que não se refugie nos malefícios que o governo de direita nos impõe para justificar qualquer insucesso, e apresente propostas de esquerda que representem uma clara alternativa à austeridade que nos foi imposta, travando, assim, nos Açores, o desígnio do “ajuste de contas” que as forças obscuras dum passado retrógrado teima em prosseguir.