O navio importa!

Há algumas semanas fomos brindados com uma verdadeira surpresa por parte do nosso Governo Regional: o fim da ligação marítima sazonal de transporte de passageiros e veículos entre os grupos do arquipélago, bem como entre as ilhas do oriental.

Como mariense, naturalmente, fiquei indignado com esta resolução. Não se trata de casmurrice, bairrismo ou resistência à mudança: trata-se de defender um serviço fundamental. Nesta altura a discussão não devia ser sobre haver navio, mas sim sobre ser um serviço permanente.

Ao falarmos neste transporte sazonal, não nos referimos só a passageiros, mas também ao transporte de viaturas, que permitem, até, o escoamento de produtos.

O aumento das ligações aéreas é uma vantagem inegável para o acesso às ilhas, no entanto não substitui o transporte marítimo. Existe toda uma logística que, através do navio, se torna muito mais acessível financeiramente e praticamente. Não sou eu que o digo. São as nossas associações, são os nossos produtores. Se queremos defender a nossa cultura, o nosso desporto, o nosso entretenimento, as nossas culturas, os nossos produtos, então temos de nos colocar do lado de quem o faz.

É também por isso mesmo que esta resolução é um erro: não contou com a audição, pelo menos divulgada, aos principais visados. As entidades foram apanhadas de surpresa.

Que ninguém diga que pelo facto de em 2020 e 2021 não ter havido navio, nos próximos anos também pode não haver. Atravessamos uma pandemia. Prevê-se que no próximo verão as restrições já estejam levantadas. Obviamente que teve de haver uma adaptação, entrando aqui também o reforço da SATA, mas esta é uma situação excecional.

Podem perguntar: e esse transporte funcionava bem, servia da melhor forma os interesses dos marienses? Não, havia muita margem para melhorar, no entanto não é por algo poder estar mal, que se vai acabar. Temos é de melhorar.

Feito o choque, veio o Governo Regional afirmar que afinal até pode haver alternativa: «quer recorrendo a operadores privados, quer através da utilização dos recursos próprios da Região». Ou seja, é provável que haja investimento privado ao barulho.

Nós vivemos num arquipélago, é mais do que evidente que o transporte marítimo é um setor estratégico e deve ser público. É preciso parar de pensar que tudo tem de dar lucro. Setores estratégicos são para servir as pessoas!

Deste episódio espera-se 3 pontos:

  1. Haja um serviço público de transporte marítimo (e estudar a hipótese de ser anual).
  2. Que o Governo regional perceba que deve ouvir os parceiros sociais e quem é afetado pelas suas propostas, conferindo transparência, solidez e democraticidade às suas resoluções.
  3. Que todo este assunto não seja na verdade um bluff, mero show off, para, numa complexa artimanha política, se tentar angariar mais votos.

Pode o leitor estranhar que eu ande para aqui a dizer que o próprio Governo Regional queria gerar esta polémica. Pensemos: as ilhas diretamente afetadas pela inexistência das rotas que havia em anos anteriores são as Flores, o Faial, a Terceira, São Miguel e Santa Maria. Três destas ilhas tem Câmara exclusivamente socialistas e numa delas esse número é metade (São Miguel). Não me admirava que esta fosse uma jogada para, nas vésperas das eleições autárquicas, vir o Governo armado em salvador – de uma crise que ele próprio gerou.

No final disto tudo, o que realmente importa é que haja um serviço público de transportes marítimos, que possa responder às reais necessidades das nossas.