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O negacionismo de Carlos César

Carlos César resolveu intervir na política regional para fazer uma leitura própria e contrária a todos os dados estatísticos existentes relativamente à pobreza nos Açores, ao jeito do negacionismo que por aí vai fazendo caminho.

No encerramento de um encontro da Juventude Socialista, o presidente do PS afirmou que os Açores “são menos pobres do que se diz e as famílias têm mais rendimentos do que as estatísticas aparentam".

Para César, os trabalhadores dos Açores são peritos no planeamento fiscal e na fuga ao fisco, verdadeiros profissionais do envio de remessas para offshores.

As palavras proferidas por Carlos César não passam de uma tentativa de encobrimento grosseiro da realidade e do desastre que tem sido a política de distribuição de rendimentos da governação do PS que, nestes longos vinte e quatro anos, tem acentuado a pobreza na região – 37,6% nos Açores comparativamente a 31,9% de média nacional.

Não esqueçamos que a taxa de pessoas em risco de pobreza nos Açores é a maior do país – 31,8%, o que corresponde a 80 mil açorianos e açorianas –, enquanto a taxa nacional é de 17,3% da população.

Ao mesmo tempo, Carlos César quer fazer esquecer que é nos Açores que a desigualdade da distribuição da riqueza é também a maior do país. O Coeficiente de Gini, indicador de desigualdade é nos Açores o mais elevado do país, o que indica que temos a pior distribuição de rendimento. Outro indicador de desigualdade, a diferença de rendimento entre os 20% mais ricos e os 20% mais pobres, nos Açores é o mais elevado de todas as regiões do país. Estes dados oficiais - com diversos indicadores - traçam um amplo e indesmentível retrato que Carlos César quer contrariar com nuvens de fumo.

O presidente do PS e ex-presidente do Governo Regional dos Açores diz que há muito rendimento não declarado nos Açores. Mas os responsáveis pela economia paralela não são os trabalhadores por conta de outrem, que para alimentar as suas famílias são obrigados a trabalhar por baixos salários, muitas vezes abaixo do salário mínimo, com vínculos precários e à hora, e onde o salário médio é quase 100 euros abaixo do nacional.

O que Carlos César quer esconder é como é que entre 2011 e 2013, anos de quebras muito significativas do PIB a coleta média do IRC foi de 40,6 milhões de euros por ano, e entre 2017 e 2019, com crescimentos do PIB significativos, a coleta média foi de 43,3 milhões de euros por ano.

O aumento de apenas 2,7 milhões de coleta anual de IRC, em conjunturas económicas tão diferentes, é um valor insignificante. Para onde foram os lucros das empresas nos últimos anos? Era isso que Carlos César deveria explicar.

Já vimos este filme. Em 2008, Carlos César fez uma campanha eleitoral assente na ideia de que a crise não chegava aos Açores, devido às políticas socialistas. Mas depois, foi o que se viu: o desemprego atingiu níveis estratosféricos que causaram dor e sofrimento em milhares de lares açorianos. Portanto, a sua credibilidade nesta matéria é muito fraca.

Encobrir a realidade é mau presságio para um momento em que a crise económica e social se instala. O que se exige, para além de encarar a realidade de frente e sem subterfúgios, são novas políticas públicas que combatam a crise de forma séria e que não deixem ninguém para trás.