Os problemas são mais fáceis do que parecem e as respostas mais difíceis do que se possa intuir. É esta a mensagem que, hoje, pretendo transmitir. Ela parece-me especialmente importante num período como este, que antecede duas campanhas eleitorais (para as regionais açorianas e as nacionais, ambas antecipadas). Vejamos por partes:
O que quero dizer com «problemas»? Refiro-me a todo e qualquer enunciado que se possa ter ou fazer. Toda a afirmação que possa ser colocada sob a forma de pergunta. Se amanhã chove, o que se entende por Mecânica Quântica, como redistribuir rendimentos, quando se deve fazer uma média, porque é que o carro está a fazer um barulho estranho, como se processa a fotossíntese, o que está alguém a sentir,… Mais gerais ou mais concretas, mas práticas ou mais abstratas, são tudo problemas.
Porque parecem difíceis? Aqui falo da dificuldade que é perceber o problema, sabermos a forma da peça que falta, mesmo não sabendo como está pintada. Ora, se o meu carro não anda, até posso conjeturar um conjunto de possibilidades, mas como não tenho muitos conhecimentos de mecânica, não consigo avaliar a situação de forma a escolher (sem ser aleatoriamente) a solução que posso ter equacionado. Portanto, a dificuldade de perceber problemas é que para saber a forma da peça que falta, temos de saber as peças que estão à volta: como ninguém sabe tudo, torna-se complicado. Há problemas que requerem muita energia mental, ou empatia, que nos afasta de os tentar perceber.
Mas então, porque não o são? Nós vivemos na era da informação, não só porque há uma enormidade de desenvolvimento técnico e científico a ser feito diariamente, mas também porque dois terços das pessoas têm acesso à internet [1], o maior reservatório dessa informação, além de cerca de 320 000 bibliotecas públicas no mundo [2]. Todos nós temos um cérebro para pensar e, com tempo, todos conseguimos entender quais as peças que definem os contornos de qualquer problema.
O que quero dizer com «respostas»? Uma resposta é, portanto, uma teia de ideias que é coerente com as premissas do enunciado, a peça que completa o puzzle. Desta forma, mesmo que coloquemos um problema como tendo como possibilidades de resposta «sim» ou «não», a simples escolha de uma palavra não é inteiramente uma resposta, por carecer do que lhe dá substância. Nunca devemos negar justificação às respostas.
Porque parecem intuitivos? Como seres racionais e criativos, mesmo que não queiramos, o nosso cérebro está sempre a funcionar. Quando ligamos isto aos nossos instintos, obtemos as intuições: quando nos debruçamos sobre um problema temos um palpite quase instantâneo. Na verdade, o nosso sistema social empurra-nos para termos de responder na hora, sendo o melhor exemplo os exames académicos. É-nos estranho alguém ter de pensar.
Mas então, porque não o são? A cada resposta há uma quantidade de novos problemas.
Enquanto entes de razão temos a possibilidade de recolher e sistematizar informação. Um problema é perceber que falta uma peça. Só se estivermos esgotados, não conseguimos concluir essa ausência. Podemos pensar criticamente. Uma resposta é saber que peça falta. Mais difícil, pode ser qualquer coisa. Mas a nossa capacidade de sistematização é capaz de avaliar as respostas que as pessoas vão dando e perceber se o puzzle fica com bom aspeto com essa peça, isto, se há coerência. Podemos pensar criticamente. Não nos deixemos levar por discursos fáceis, pensemos.