As medidas esta semana apresentadas pelo Governo da República para combater os efeitos da inflação, como foi bem referido pela deputada Mariana Mortágua, "chegam tarde, são curtas e têm truques".
Em primeiro lugar, é óbvio que 125 euros não vão compensar o que as pessoas já perderam; a descida do IVA da eletricidade aplica-se apenas a uma pequena parte do consumo e o apoio aos pensionistas esconde um truque que reduz o valor das pensões a que os pensionistas teriam direito no futuro, por via da atualização que estava prevista para o próximo ano. O pacote vem vazio de consequências e cheio de truques.
Para além disso, o Governo da República insiste em abdicar de tentar intervir sobre os preços de bens essenciais e de taxar lucros extraordinários. Assim não vai ser possível atenuar a subida galopante da inflação. O mesmo faz o governo regional de todas as direitas ao recusar intervir sobre os preços, apesar da aprovação por unanimidade, no parlamento dos Açores, de uma proposta do Bloco para que o fizesse.
Para repor o poder de compra perdido ao longo dos últimos longos e duros meses, o aumento de salários e de pensões é a única medida verdadeiramente justa e consequente.
Os preços da grande maioria dos bens de consumo não voltarão aos níveis de há um ano. Por isso, sem um aumento de salários, de pensões e de apoios sociais o poder de compra continuará a descer e não é um apoio extraordinário que compensará a perda salarial.
É por isso fundamental que o governo, enquanto entidade patronal, promova aumentos salariais que compensem totalmente a perda de poder de compra.
Aliás, a esse respeito, as medidas previstas para os pensionistas são especialmente injustas. A lei de atualização de pensões prevê para 2023, fruto da combinação entre o aumento do PIB, o crescimento da economia e a inflação, uma atualização significativa das pensões. Agora o governo está a dizer aos pensionistas que vai fazer um aumento abaixo do previsto na lei. Vai reduzir o aumento a que os pensionistas têm direito no futuro e em troca vai antecipar e dar meia pensão em 2022. Um embuste!
Ao mesmo tempo que engana os pensionistas, o Governo da República protege o grande poder económico ao recusar taxar os lucros excessivos de quem está a lucrar milhões com o aumento da inflação e com o empobrecimento da vasta maioria das pessoas.
Nos Açores o Governo Regional afirma-se satisfeito com as medidas e não avança com medidas que complementem as altamente insuficientes medidas do Governo da República. Aliás, as poucas medidas que o Governo Regional implementou para atenuar a inflação só surgiram após o Bloco ter levado o assunto ao parlamento. E mesmo assim, o governo não cumpre o aprovado, pois ao invés de aumentar apoios sociais, atribui uns trocos de apoios extraordinários, escondendo que os beneficiários, no mês seguinte, irão receber o que sempre receberam.
Como sempre, o Bloco está na linha da frente do combate ao aumento do custo de vida. E já tem no parlamento dos Açores uma proposta para aumentar o complemento regional ao salário mínimo. Tendo em conta que quase 40% dos trabalhadores nos Açores aufere o salário mínimo, o alcance desta medida é enorme.