Nesta altura do ano seria o mais indicado ter uma mentalidade natalícia ou fazer um balanço do ano. Pois bem, a minha criatividade não chega para trabalhar o tema que quero aqui trazer nesses moldes, pelo que o apresento em bruto e quem o ler, se assim o entender, pode fazer uma ponte com a altura do ano.
Assim sendo, termino o ano com um apelo ao pensamento sistémico: coabitamos um ecossistema. Em última instância, esse ecossistema é a Terra e percebemos melhor do que nunca a gravidade que desequilíbrios ambientais geram, bem como o poder do humano em desencadeá-los [1] – só não notamos mais, porque, felizmente, habitamos num país, dito, desenvolvido [2].
Desengane-se, contudo, quem achar que falo apenas de ecologia. As alterações climáticas são o exemplo por excelência dos impactos em ecossistemas: nós, que fazemos parte do ecossistema, lançamos gases com efeito de estufa para a atmosfera, ocorre o efeito de estufa, dá-se a acidificação dos oceanos (um processo natural para contrabalançar a nossa emissão de gases), animais marinhos não conseguem desenvolver as suas conchas e esqueletos [3], essas espécies desaparecem dessas zonas, os seus predadores também,… É só uma linha das milhentas possíveis de mostrar que vivemos em teia. Também podemos falar do enorme número de refugiados climáticos, ou de quebra de mão de obra por questões de saúde decorrentes de ondas de calor ou poluição, ou a destruição de edifícios em inundações ou a sua inutilização pelos materiais não suportarem as amplitudes térmicas [4]. Tudo problemas políticos.
Deixemos de lado as alterações climáticas. Olhemos para o nosso mel. Os Açores são uma região privilegiada para a sua produção, por ainda não ter a prevalência de um ácaro prejudicial às abelhas [5]. Trata-se de uma excelente oportunidade para diversificação económica! Contudo há outras ameaças, como a mudança da flora que as abelhas polinizam. Não obstante, é possível combater essas espécies invasoras e ainda obter vantagens económicas [6]! A investigação em biologia dá-nos esta visão da tal teia que devemos trazer para tudo. A investigação científica dá-nos modos de compensar e melhor operar aquilo que pretendemos.
Os desequilíbrios que hoje provocamos artificialmente só podem ser explicados pela presunção e ignorância. Por olhar ao próprio umbigo e pela relutância à ponderação e investigação.
Cada proposta que vemos em cima da mesa (e em campanha eleitoral veem-se muitas), tem várias consequências a vários níveis. Um exemplo: a ausência do navio de passageiros para Santa Maria levanta maiores custos para a realização de eventos e escoação de produtos, reduz o número de turistas de outras ilhas, reduz as emissões por via marítima, aumenta aquelas por via aérea, mitiga uma rota deficitária, implica mais custos em viagens aéreas,…
Em suma, o que quero transmitir é que o quer que façamos ou decidimos consequenta mais que o seu objeto. Pensemos integradamente.
[1] https://news.un.org/pt/news/topic/climate-change
[2] https://news.un.org/pt/story/2023/09/1820467
[3] https://noticias.uac.pt/wp-content/uploads/2023/09/Revista-17_09_2023-12317-Paginas-12e13-Edicao.pdf
[4] https://climate.ec.europa.eu/climate-change/consequences-climate-change_pt
[5] https://fnap.pt/seis-ilhas-dos-acores-reconhecidas-como-indemnes-de-varroose-pela-uniao-europeia/