O que 2027 já fez pela cultura nos Açores

A Comissão Europeia publicou, nesta semana, o relatório de avaliação das quatro candidaturas portuguesas finalistas à Capital Europeia da Cultura em 2027. Está, portanto, na hora de fazer o balanço de um processo que teve tanto de belo e envolvente, quanto de difícil. Sabia-se, desde o início, que, mais importante do que obter o título, era a oportunidade de fazer da cultura uma prioridade política local e regional. Foi com essa convicção prévia que, em 2021, mais de 800 pessoas, muitas delas profissionais do setor, assinaram um manifesto que continua válido: entender a cultura como catalisadora do desenvolvimento dos Açores, vendo nesta candidatura um primeiro passo para que tal aconteça.

Sai-se sempre vencedor

Ao longo do processo sobressaiu sempre uma ideia central: participar da candidatura - independentemente do resultado final - é sempre uma vitória em si. Aliás, é precisamente pelo caráter pedagógico e potenciador que encerra, que se desenvolveu este modelo de escolha da capital europeia através de uma espécie de “concurso interno”. Alarga-se assim - e com entusiasmo - a reflexão e a discussão. Mobilizam-se pessoas, criam-se parcerias, nascem projetos que permanecem.

Estratégia Cultural 2030

Fez-se, para Ponta Delgada, uma estratégia municipal para a cultura, para esta década. Este é um compromisso político que todos os municípios concorrentes têm de assumir, obrigatoriamente. Há, agora, um levantamento social e cultural atualizado e uma visão de futuro para fortalecer a atividade artística e cultural do concelho, articulada com outras ilhas do arquipélago. Este compromisso atravessa mandatos e é independente do resultado da candidatura. Pode e deve ser exigido pelos seus cidadãos aos executivos camarários.

Uma comunidade envolvida

O relatório da Comissão Europeia avalia muito positivamente o projeto cultural apresentado e como este conseguiu envolver a comunidade. Não há dúvidas de que tanto a equipa que coordenou este processo como os representantes dos diversos setores estão de parabéns. Em pouco mais de dois anos, com pouco dinheiro e numa posição de grande descentralização em relação a outros centros urbanos, fez-se uma candidatura que chegou à fase final de uma seleção muito competitiva. É sinal claro da qualidade do que foi feito e uma nota para que não se perca todo esse legado.

O que está a faltar?

O mesmo relatório é incisivo sobre o baixo investimento financeiro alocado: “in particular, the City of Ponta Delgada contribution is perceived as rather low”. Quatro milhões de euros é, de facto, pouco (o município vencedor, de Évora, atribui sozinho mais de dez milhões, o que equivale ao que PDL e o Governo Regional pretendiam investir em conjunto). Os municípios do Alentejo, em conjunto, adicionaram cinco milhões, em claro contraste com os dos Açores que se ficam pelos 400 mil. Revelador da (crónica) desatenção de que a cultura é alvo na região e de que estes primeiros passos (que não se podem perder) ainda não foram suficientes para fazer dela uma prioridade política.