A leitura do relatório revela uma avaliação muito positiva da candidatura, fazendo crer que Ponta Delgada - Açores é uma séria candidata ao título e que muito terá a ganhar se o compromisso político e financeiro sair reforçado na segunda e última fase desta corrida.
No passado março, Ponta Delgada - Açores foi anunciada como cidade finalista na corrida pelo título de Capital Europeia da Cultura 2027. Évora, Braga e Aveiro foram as outras cidades selecionadas. O processo de pré-seleção deu origem a um relatório em que todos os critérios são devidamente descritos e todas as candidaturas detalhadamente comentadas.
Segundo este relatório, a candidatura açoriana apresenta um conceito programático “muito forte, distinto, baseado num verdadeiro sentido de lugar que se mostra relevante para os tempos que correm. A dimensão europeia proposta é prometedora e tem potencial para fazer a diferença no nosso entendimento da Europa”. A proposta, cujo processo de construção foi muito participado através de diálogo com membros dos diversos setores da sociedade açoriana, assentou o seu conceito na relação açoriana entre cultura e natureza.
“A nossa natureza é humana” quer levar à Europa e ao mundo uma noção arquipelágica de partilha e cooperação em sintonia com o ambiente. Por outro lado, a própria noção tradicional de Europa é desafiada com a reivindicação de uma outra perspetiva: “A Europa começa aqui” e que procura repensar a ideia de território e de pertença numa perspetiva plural e inclusiva.
Uma leitura atenta e isenta do relatório (que é público) constata facilmente que o painel de avaliação viu nesta uma proposta coerente e de grande pertinência no tempo e lugar a que pertence. Fugindo neste artigo a comparações simplistas - até porque o painel sublinhou que todas as cidades estão em pé de igualdade na possibilidade de saírem vencedoras - é claro na análise do documento que o projeto açoriano leva uma avaliação muito prometedora por parte do júri.
Saem destacadas, como já citado, a dimensão artística e cultural, o que é, afinal, o objetivo principal de um projeto desta natureza. Mas além da qualidade da estratégia de longo prazo, da dimensão europeia e do programa cultural, o painel também valoriza a clareza da gestão, a capacidade de execução e a interação com a comunidade. Nos vários aspetos, a candidatura açoriana dá mostras de competência e de uma visão conhecedora e realista.
Outro critério fundamental está a cargo do Município proponente, neste caso o de Ponta Delgada. O painel diz mostrar-se preocupado com as recentes flutuações e cortes no orçamento municipal para a cultura - entre 2017 e 2021. Os contributos anunciados por parte da Câmara Municipal (1,6 milhões) e Governo Regional (2,9 milhões) também não impressionaram o júri que considerou estes valores “relativamente modestos”. E se os compararmos com os apresentados pelas outras cidades, compreendemos. Aveiro apresenta 4,6 M do município e mais 1,6 M de dinheiro regional. A Câmara de Braga compromete-se por si só com 5 M, tal como a de Évora, que conta ainda com outro tanto da região Alentejo.
Sendo que a disponibilidade orçamental demonstra compromisso político e financeiro por parte das entidades componentes, este critério será, sem dúvida, central, pelo que se espera que o poder municipal e regional dos Açores se comprometam e apostem seriamente nesta candidatura e no poder transformador da cultura.