Por vezes, aquilo que mais apetece é estar estatelado e enroscado na cama. Isto acontece, porque tanto na experiência de adormecer, como naquela de acordar, estamos munidos de conforto. Um colchão confortável, lençóis macios, dois edredões dentro de uma capa extraordinariamente fofa pelo número de anos que têm,… Conforto e segurança ímpares em relação ao resto do dia.
Quando estou na cama e sinto esse conforto, não consigo deixar de questionar sobre o número de pessoas que não o têm. Não estou a falar só de quem não tem uma cama onde dormir, como também de quem tendo, vê nela a mera satisfação de uma necessidade fisiológica. Na nossa realidade (felizmente, tanto quanto é possível afirmar), esta última realidade é mais comum do que a primeira, no entanto confesso que duvido que isso se traduza numa qualidade de vida exponencialmente melhor. Dedicar a maior parte das horas acordado ao trabalho para chegar a casa e fazer as tarefas domésticas com o espectro de não saber se consegue pagar as contas todas, não parece de forma alguma uma vida digna.
Infelizmente, parece que sentir o conforto da cama é um privilégio. E se o é algo tão básico e previsível do nosso dia-a-dia, o que dizer de matérias contingentes? Da segurança que sentimos na rua perante os olhares que nos depositam, testemunhos de diferentes atitudes quando o agrado ou desagrado para com as caraterísticas que exibimos. Dos horizontes que se podem alcançar com a carteira vazia. Assumir o privilégio não é negar mérito, é defender a dignidade humana, considerando de elementar bom-senso que todos possamos ser privilegiados do mesmo modo. Não deixa de ser caricato que em pleno século XXI ideias como ninguém passar fome, todos terem teto, todos terem respeito, entre outras, ainda são miragens e em muitos casos não são consensuais. É triste ver como quem mais tem a ganhar em justiça é quem se torna cúmplice, quem se divide ao sabor de ficções imaginárias que perpetuam desigualdades dolorosamente reais.
Parece-me que o maior problema no contacto com a utopia, o projeto da sociedade justa, é o do vulgarmente familiar. Nós vivemos numa realidade material. Quando afirmo a palavra «quotidiano», carrego-a com a materialidade do dia-a-dia: desde o café, ao autocarro, ao abraço, além de categorias como trabalho, tarefas ou refeição. «Quotidiano» é o filme de cada um que se vai desenrolando, é a perspetiva de cada corpo que interage fisicamente com o que o rodeia. Sentimos, vemos e ouvidos em espaços, ruas e edifícios, muito específicos, quando colocados em perspetiva com a restante humanidade. Fazemo-lo dia após dia. Estas interações toldam aquilo que perspetivamos como possível, como alcançável, nos seus vários graus. Aquilo que nos é acessível é tido com normalidade, daí o darmos por garantido, a facilidade de ignorar privilégios, a ausência de questão. Não obstante, num momento de nova conquista, do alcance de algo que se queria, que não era normal, rapidamente chega o momento do impacto com a normalidade: materializou-se. Não estou a dizer nada de extraordinário: o saber popular sintetiza-o como «o melhor da festa é esperar por ela». Aquilo que nos é futilmente familiar é-o pela sua materialização, o seu pensamento, no domínio do ideal, foge-lhe.
Receio que este vulgarmente familiar seja a casa de muito cinismo que toma qualquer ação como uma desilusão à espera de acontecer. Na verdade, o vulgarmente familiar é que é uma ilusão, que se desmonta com o espanto, a loucura da vida.