O retrato e a realidade do custo de vida

Não há dias em que não vamos ao supermercado, à bomba de gasolina ou pagar a renda ou a prestação e que não pensemos que os preços subiram em flecha e que os salários não acompanharam.

Os governos afirmam que os indicadores económicos são positivos. O PIB cresceu e os rendimentos subiram mais do que os preços. Essa convicção é suportada através da estatística oficial, que é credível, mas as pessoas suportam a sua convicção na realidade da sua carteira, que não engana ninguém, porque quando está vazia ninguém vende fiado.

Será que os indicadores tradicionais a que economistas e governos recorrem para avaliar o estado da economia, do rendimento e das condições de vida falham em ler a realidade ou será que as pessoas valorizam mais dados subjetivos do que a estatística oficial?

Não podemos descurar as abordagens da economia comportamental e fenómenos como a chamada “vibecession”, termo popularizado pela economista Kyla Scanlon, que junta os termos “vibes” (sensações) e “recession” (recessão) para descrever um tempo em que os indicadores económicos são positivos, mas a “vibe” (sensação) é negativa.

No entanto, uma carteira vazia não é uma sensação. É uma explicação objetiva para a “vibe” negativa.

Vejamos o exemplo do aumento real dos salários. Segundo a metodologia do INE, calcula-se descontando o impacto da inflação (medida pelo Índice de Preços no Consumidor - IPC) ao crescimento nominal das remunerações. Mas será que o peso de cada componente do IPC reflete o seu peso real no orçamento familiar?

A componente do IPC “Habitação, água, eletricidade, gás e outros combustíveis” representa 9,3% do cabaz de compras das famílias definido pelo INE. Todavia, o peso da habitação nas despesas das famílias em Portugal era, em 2024, de 28%. Para além de questões metodológicas, essa disparidade deve-se ao facto de os créditos ficarem de fora das despesas da habitação, no IPC.

O IPC ignora, assim, um dos maiores custos de milhares de famílias que recorreram ao crédito para a habitação que, ainda para mais, teve aumentos muito fortes com a escalada dos juros aquando da crise inflacionista, subida que hoje está de regresso.

Assim, para milhares de famílias, o seu rendimento líquido aumentou estatisticamente, mas foi reduzido na prática porque os indicadores não leem a sua situação de muitas outras pessoas que se sentem mais pobres, porque na verdade estão mesmo mais pobres. Este e outros exemplos mostram que o aumento do custo de vida não é mera perceção. É uma dura realidade a que urge dar resposta!