O rifte em ação

Face ao caótico cenário que nos chega do Atlântico, parece-me pertinente esquematizar em alguns pontos os desenvolvimentos recentes.

Das eleições deste ano na Madeira surgem-nos resultados iguais aos de sempre, mas num cenário novo. Quero com isto dizer que a configuração de forças na assembleia regional da Madeira será em tudo igual ao que anteriormente foi. O resultado de Cafôfo em 2019 foi uma anomalia, não existindo uma verdadeira segunda força. Não obstante, o cenário é novo, porque essa fragmentação surge sem o partido no executivo ter a maioria absoluta.

Uma noite sem vencedores: o estrondoso desempenho da coligação não apaga o histórico das maiorias absolutas, tecendo estas uma enorme sombra; o CDS provou-se uma inutilidade eleitoral para o PSD, sendo, neste momento, um partido fantasma no executivo; o PS voltou ao que era; o JPP não se afirma como alternativa de poder; o CH emerge, mas não conseguirá influenciar a governação; a CDU manteve-se; BE e PAN regressam à assembleia, mas representam uma fatia bastante reduzida do eleitorado.

Desde o primeiro discurso na noite eleitoral ficou evidente o pragmatismo do PAN em assegurar a sua influência. Miguel Albuquerque, melhor do que ninguém, percebeu que essa disponibilidade lhe garante maior estabilidade do que uma IL que se pretende afirmar ideologicamente. Já nos Açores é evidente essa dinâmica, tendo o deputado da representação parlamentar do PAN votado favoravelmente ou abstido na votação de grandes documentos, apesar da maioria já ter os votos necessários – e com menos histeria que CH e IL.

Engraçado é estarmos a comprovar a instabilidade destas forças, CH e IL, com a possibilidade do chumbo do Plano e Orçamento Regionais para 2024, levando a eleições antecipadas. Não será, obviamente, um ato inocente nem idealista, é uma tentativa desesperada destes atores se distanciarem de uma governação fracassada que apoiaram e influenciaram. O desinvestimento público da IL e o vazio aleatório do CH aprofundaram sérios problemas da região. A sede do CDS e PPM em colocar os seus boys nos cargos de nomeação (e em concursos públicos dignos de uma verdadeira meritocracia), valeram uma administração pública tão infestada como o legado do PS.

Recentemente, no "Quando há excesso da população, abate-se", já enunciei graves problemas que este governo não resolveu, ou aprofundou, problemas que toca de fachada, sem uma reforma estrutural que resolve ou melhore substancialmente a situação.

Pessoalmente, perturba-me, também, muito a ausência de seriedade: o candidato do CH na Madeira a colocar baixa na pré-campanha; a IL na Madeira, depois de abrir a porta a Albuquerque, sendo o "adulto na sala", e sabendo do acordo com o PAN, vem num discurso que grita "agora nem queria"; um CH nos Açores que só berra repetidamente como está constantemente a romper os acordos; palavras de catavento, atitudes interesseiras, além da governação em função de si.

Tudo isto lembra um livrito de sátira política ficcional de Ian McEwan: A Barata.

E por tudo isto preocupemo-nos: estamos a caminhar por cima de um Rifte em efervescência. Uma direita que se norteia pelo objetivo único de se manter no poder: sem programa, sem escrúpulos, só desmesura e egoísmo. Na Madeira, Albuquerque presunçosamente dizia que se demitia se não conseguisse a maioria absoluta: para ele, o que lhe interessava era o seu poder absoluto. Nos Açores, podemos ter eleições antecipadas, porque as forças de direita se querem afirmar politicamente isoladas dos seus fracassos. Há centenas de anos que vivemos em cima de um rifte, saibamos lidar com este.