No passado dia 13 de junho fez 40 anos que perdemos o António Variações. Morreu com a idade que tenho agora, no ano em que nasci e a voz dele é uma das minhas recordações musicais mais antigas: “porque eu só estou bem aonde eu não estou, porque eu só quero ir aonde eu não vou”, ouvida no rádio de um autocarro, enquanto eu própria ia de um lugar para outro e tomava através dele e bem cedo - teria quatro, cinco anos - tão clara consciência do desajuste constante entre a vontade e a realidade.
O que vale ao ser humano são todas as formas que inventou para lidar com essa eterna tensão entre o que se quer e o que se tem. A arte é uma delas, a política outra, mas há mais. António Variações foi uma daquelas pessoas inteiras que era arte e transformação, política e identidade, ícone na vida e na morte. Continua, ainda hoje, infindável. Não se esgota.
Na celebração da data redonda do dia em que nos deixou, foram partilhadas fotografias inéditas. E, nalgumas delas, ele sorri. Variações, que ganhou contornos de mártir pelas circunstâncias de uma morte prematura e que em vida conjugou surrealismo com uma solenidade quase sagrada, não sorria nas fotografias oficiais. Em quarenta anos, os únicos sorrisos que se mostraram dele apareciam por detrás do bigode, nalgumas imagens televisivas. António Variações vibrava em luz e cores, mas mantinha uma postura de Antero sem idade, com o rigor poético e estético de um santo ou de um fadista.
Que o seu sorriso só venha agora à luz do dia sugere que não sorrir tenha sido uma escolha sua. Apetece-me brincar à especulação de adivinhar os porquês dessa vontade. Os símbolos só se tornam símbolos se funcionarem e António funcionou. Mais do que isso: triunfou - o tempo que o diga. E num país como Portugal.
António quis mostrar-nos que o desejo é uma coisa séria. E fê-lo num tempo ainda patriarcal, marcado pela honra e pela vergonha, acabados que estávamos de sair de uma ditadura repressora, onde a sexualidade e sobretudo a homosexualidade era ou escondida ou ridicularizada, quando não punida e perseguida. Deu corpo ao desejo, sem nunca o libertar totalmente da culpa - de um modo algo premonitório, porque a sua história até parece vir dar-lhe razão e confirmar que a culpa teria mesmo sido da vontade.
A SIDA foi um fantasma que assombrou a revolução sexual que então se iniciava e ajudou a manter muitos tabus e preconceitos baseados na culpa dos quais já nos poderíamos ter visto livres nestes 40 anos. Isso foi um retrocesso, mas avançou-se noutras frentes como com o casamento e adopção por casais do mesmo sexo ou com a lei da identidade de género.
A aparição do sorriso do Variações - assim como a sua ausência nestas quatro décadas - é um símbolo político de uma transformação que ele fez acontecer em Portugal porque já a tinha dentro dele. Variações foi uma das mais belas criações de Abril e se essa liberdade já estava na figura grave com que nos impactou, ainda mais está naquele sorriso afinal fresco e cativante e leve.