Já se sabe que o coronavírus não é humano e, como tal, não vai nas cantigas do estatuto e do privilégio, e que atinge com particular impacto as pessoas de maior idade e com historial de doença. Mas não só. Infelizmente já ouvimos falar de vítimas com sintomas graves, e até mortais, que não eram de idade avançada nem tinham patologias.
Dificilmente se poderá considerar qualquer doença uma coisa boa, mas por muito que tenhamos a lamentar pela existência deste vírus, há coisas que temos de trazer sempre na lembrança. É certo que o vírus não atinge todos por igual, porém, esta pandemia veio, de forma muito evidente, pôr a nu desigualdades estruturais já existentes e aprofundá-las ainda mais. Isso ficou claro na exposição ao vírus, através das desiguais condições de acesso aos cuidados de saúde, das desiguais condições de trabalho, da habitabilidade e de acesso a meios de transporte. Ficou também claro na exposição à crise económica, através das desiguais situações laborais (sobretudo em certos setores como a cultura ou o turismo). E até na educação as diferenças se tornaram muito mais visíveis, através de desiguais condições de acesso aos meios de comunicação digital.
Tornou-se também claro que era necessária uma rápida reação e um enorme esforço conjunto por forma a solucionar esta pandemia. Contudo, nem as soluções trazidas por esse processo chegam de forma igual a todos. Fica em vantagem quem pode recorrer a um estado social forte, que rapidamente possa providenciar o acesso a bons sistemas de saúde e apoios sociais eficazes. Saem beneficiados os países que foram apostando no seu sistema científico e tecnológico e que agora podem responder de forma rápida às necessidades de diagnóstico, cuidados, e prevenção (onde se inclui o desenvolvimento de uma vacina).
Para piorar, há quem consiga ainda, no meio deste caos, contribuir para um aprofundamento e um aproveitamento das desigualdades. Incluem-se neste grupo todos os que procuram lucrar com a pandemia. O exemplo mais clamoroso é, obviamente, o das farmacêuticas e de quem lhes permitiu que desenvolvessem vacinas com financiamento público sem tornarem público esse conhecimento, lucrando assim astronomicamente com um investimento que é de todos nós e deixando milhões de pessoas em todo o mundo à mercê da doença, quando a partilha da fórmula permitiria uma rapidez muito maior na vacinação coletiva e logo, claro está, uma mais rápida solução do problema.
Incluem-se também neste grupo todos aqueles que não só não contribuem para a informação, como ainda alimentam a desinformação. São tanto mais criminosos quanto maior a sua influência e responsabilidade políticas, como é o caso de líderes mundiais que esconderam, desvalorizaram ou ridicularizaram a pandemia e os seus efeitos.
E também não fogem a este grupo todas as pessoas que, tendo ou não responsabilidades políticas, se aproveitam das falhas do sistema em sua vantagem. Falo, nomeadamente, das que contornam as regras e obtêm vantagem pessoal, como quando desviam para si uma vacina que é cara, que é rara e que há tanta gente a precisar dela.
De que é que precisamos para que possamos diminuir estas desigualdades? Desde logo de políticas ambientais que impeçam a exploração incontrolada dos recursos naturais e consequentes desastres ecológicos, entre os quais novos vírus. De políticas que defendem um estado social forte, capaz de apoiar quem mais precisa, cuidar dos doentes, e de quem fica vulnerável e a necessitar de apoio (no dia de amanhã qualquer um de nós se pode ver nesta situação) e que defendem a procura do conhecimento e investem numa ciência em acesso aberto. Sem esquecer as políticas que combatem a desinformação e promovem a literacia mediática e científica.
E para isso é preciso ter sempre presente que mesmo depois da pandemia continuaremos expostos ao que mais possa vir, se não soubermos comportar-nos como o todo que somos.