Obviamente demitiu-se

A queda do governo da república da AD, que se consumou ontem com o chumbo da moção de confiança que apresentou na Assembleia da República, resulta de uma inqualificável tentativa do primeiro-ministro em culpar a oposição pela situação insustentável em que se colocou e pela previsível convocação de eleições antecipadas.

Não podia ser mais clara a intenção do primeiro-ministro e da AD em vitimizarem-se na campanha eleitoral, aliás, seguindo exemplos recentes.

O governo demitiu-se. Demitiu-se porque o primeiro-ministro colocou-se num pântano, e, para se tentar salvar politicamente, tentou culpar a oposição através da apresentação de uma moção de confiança.  

Sabendo Montenegro que a moção de confiança estava condenada à partida, a sua apresentação é uma demissão de facto. Era tanta a confiança na sua moção que Montenegro sugeriu uma espécie de barganha para retirar a moção de confiança. Uma cena nunca vista e, espero, nunca mais será repetida.

Não há nenhum problema em que um primeiro-ministro tenha empresas e património.  

O que não pode acontecer é que o primeiro-ministro receba avenças de empresas com contratos com o Estado através de uma empresa que não existe para além dele. Só o PSD e o CDS parecem achar que não há aqui um problema grave.  

O país é assim arrastado para eleições por um primeiro-ministro desesperado e sem futuro e numa insustentável situação.  

Os problemas do país não são, todavia, os problemas de Montenegro e do seu passado empresarial.

Havendo eleições, como tudo indica que irá acontecer, o que o país precisa é de soluções para os problemas que diariamente preocupam as pessoas, que afetam as suas vidas e às quais este governo não deu resposta e até agravou.

A crise da habitação avança, fruto da especulação desenfreada, protegida e fomentada pela direita.  

Os graves problemas na saúde que, segundo Montenegro, seriam resolvidos com um tal de plano de emergência que em nada resolveu problemas de fundo.

A necessidade emergente de dar mais direitos e melhor salário a quem trabalha e garante que este país funciona vinte e quatro horas por dia.

Ontem, na Assembleia da República, o governo da AD acabou por sua única e exclusiva responsabilidade. Está na hora de mudar.