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Olhar para o futuro

Celebramos hoje mais um dia da Região Autónoma dos Açores, o momento certo para se refletir sobre os Açores, o caminho que trilhamos, os dilemas que necessitamos de resolver e a autonomia nas suas diversas vertentes e na sua complexidade.

 

O tempo atual é um tempo de mudanças profundas. A década de 20 iniciou-se no auge de um acontecimento disruptor - uma pandemia - que colocou em perspetiva, não apenas a forma como organizamos os cuidados de saúde, no seu sentido mais lato, mas também a forma como a globalização tornou a Europa vulnerável e dependente da produção industrial externa.

 

A guerra causada pela brutal e ilegal invasão da Ucrânia pela Federação Russa, para além das milhares de vidas destruídas - o impacto mais grave de todos - terá efeitos tectónicos globais ainda desconhecidos em grande medida. Nas motivações subterrâneas deste conflito, os diferentes imperialismos jogam peças de xadrez para reforçar o seu poder que em parte passam pelo controle de matérias primas.

 

Não podemos prever todos os efeitos destes acontecimentos e de outros que o mundo ainda nos reserva. Mas é nosso dever não sermos apenas reativos. O planeamento, a estratégia e o fortalecimento das estruturas base da nossa sociedade garantirão sempre que resistiremos mais e melhor às tempestades que assolam o mundo. O Atlântico nordeste não é imune a elas.

 

Em várias áreas, a nossa resistência a choques externos está dependente da nossa autonomia em áreas chave. Olhamos para a nossa autonomia energética e percebe-se que os Açores estagnaram para alimentar velhas dependências e rendas. Continuamos maioritariamente dependentes de combustíveis fósseis, até para a produção de energia elétrica, ficando atrás do que são os números nacionais, num sinal da estagnação nesta área.

 

A dependência excessiva de poucos setores, a nuvem negra das monoculturas, continua a pairar sobre nós. A história ensinou-nos muito mas a verdade é que aprendemos pouco coletivamente. A diversificação da economia não é tarefa de somenos nem uma que se implemente sem dificuldades e suor. Mas o desenvolvimento dos Açores, na vertente humana e económica depende dela.

 

A educação, a par do investimento na ciência e na tecnologia, com especial incidência nas áreas que nos diferenciam, como o mar, são as únicas estratégias capazes de abrir caminhos novos. São estes que darão um novo futuro aos açorianos e açorianas. Vemos o contrário nas prioridades da governação.

 

Mas no dia em que se celebra os Açores, a sua cultura e gente e também o seu território, que tanta influência tem em cada um e cada uma de nós, a reflexão acerca de como nos vemos e como somos vistos enquanto povo e enquanto ilhas impõe-se.

 

O deslumbre pela exposição nas montras dos gigantes do capitalismo global, principalmente quando isso é feito alimentando-se e alimentando estereótipos e preconceitos sobre as nossas comunidades, não nos pode desviar do objetivo de combater esses mesmos preconceitos e estereótipos e acima de tudo os fatores que lhes dão origem. Muito menos podem as instituições democráticas da autonomia ser os patrocinadores do perpetuar do que há décadas procura-se combater.

 

Do mesmo modo a natureza na região, na sua plenitude, não pode ser cada vez espezinhada por projetos que corroem o território com crescimento desordenado, ou ser a flor na lapela de projetos que apenas querem um palco verde para o seu modelo de negócio, colocando em risco o meio natural e a vida que habita esse mesmo palco.

 

O dia da Autonomia deve fazer-nos refletir sobre a nossa estratégia de desenvolvimento mas também sobre a forma como conservamos a natureza das nossas ilhas e superamos as desigualdades que a exploração criou.