A minha tarefa há muito que já não será indicar que algo está mal, toda a gente o sente, quando muito será tentar mostrar precisamente a causa dessa intuição. Não obstante, olhando para o que aqui posso escrever, penso que a responsabilidade de quem está deste lado é exortar à ação.
Parece que aqui se vem colher a dose diária de pessimismo. Que chatice esta. Eu não fico feliz, mas só nos estaríamos a iludir se quiséssemos ignorar que a AfD, partido de extrema-direita alemã com ligações neonazis, acabou em segundo lugar com 20% dos votos. A extrema-direita alemã. Se os alemães parecem já ter perdido a memória, o que será dos outros?
Não bastasse a falta de memória, temos ainda de levar com as barbaridades que diariamente saem da Casa Branca. Então não é que Trump acabou com os EUA como «líder do mundo livre»? Perante o presidente de um país em guerra, um país invadido, a preocupação é sobre a ausência de fato. Relembremos a imagem de Musk há duas semanas com o filho na Sala Oval e só nos apetecerá rir com a absurdidade com que a pós-verdade se desenrola aos nossos olhos.
Por cá, temos um governo que é ou extremamente incompetente, ou nos toma por indivíduos desprovidos de inteligência. Não é que quando eram os outros a governar se exigia uma reforma na transparência, incluindo o preenchimento de formulários sobre incompatibilidades, e agora, quando chegam ao governo, ignoram completamente essa necessidade?! 18% dos portugueses estão de tal forma fartos do mundo político que são capazes de votar nos autofágicos e Montenegro brinca ele próprio com os seus conflitos de interesse. «Seria justo e até adequado, fechar tudo, abandonar tudo só porque circunstancialmente fui para Presidente do PSD e agora estou Primeiro-Ministro?» Montenegro ficou admiradíssimo quando um dia estava no seu escritório e o arrastaram para o PSD sob o forte desígnio nacional. Que massada aquela.
Outro dia, uns amigos riam-se quando lhes dizia que cada vez mais me achava num ideário epicurista, mas não lhes era difícil ver a ligação, até porque prontamente perguntaram: queres um Jardim? O epicurismo foi uma escola da Filosofia Helenística, que defendia uma certa clausura em comunidade. Como outras escolas desse período, surgiu como forma de suportar a vida, apaziguante as angústias e receios. Parte dessa receita, que foi vista injustamente como essencialmente hedonista, consiste em viver com aqueles que comungam da mesma perspetiva. O Jardim, mais do que uma escola de Epicuro, foi uma comunidade onde viviam aqueles que partilhavam os ensinamentos desse mestre. Num mundo de incertezas como pode ter sido a Grécia de IV a.C., podemos tender-nos a voltar para os nossos amigos e querer encontrar um refúgio. Ora este tempo não é para isso. Por muito que queira ceder a essa visão, aquilo que precisamos é da nossa ação, da nossa atitude, do nosso arregaçar de mangas. O mundo está do avesso? Pois bem, então é preciso é pô-lo direito, não fingir que não se está a ver. Talvez nos seja tão fácil ficarmos no nosso (suposto) refúgio, porque não vivenciamos com os nossos sentidos as crises que assolam o mundo. Às vezes até parece que elas só existem na comunicação social. A verdade é que é óbvio que tanto o emagrecimento da carteira como o aumento da temperatura se fazem sentir ou se farão sentir para a esmagadora maioria de nós.
É preciso sair, falar, unir, organizar. Talvez pareça muito, mas nós somos tantos que pequenas atitudes podem ter grandes repercussões. Mais vale tentarmos uma boa solução para um amanhã melhor, do que canalizar estas energias para o ódio ou o bota-abaixo de sofá. Parece mentira, mas estamos juntos.