Os grilhões da cama

Mais uma vez me vejo a recorrer à minha experiência do dia-a-dia. Há sempre o receio do leitor não se rever nessa vivência, mas penso ser um risco baixo. Escrevo este artigo num domingo. Demitiu-se o secretário regional da saúde e, entretanto, já preencheram a vaga, mas isso não me motiva a escrever. Aliás, o que me motiva a escrever as palavras que se segue é justamente o nada, a ausência de coisa. Ora vejamos. No dia anterior o Festival da Canção acabou pouco depois da meia-noite e ainda me pus a acabar de ver um filme. Presumivelmente acordaria mais tarde, mais do que num dia de aulas, de certeza. Acontece que só acordei propriamente já passavam das treze (são raríssimas as ocasiões em que isso aconteceu). Sendo domingo e como estava a gostar demasiado da minha cama, continuo enroscado ainda um bom bocado, até considerar boa ideia improvisar um almoço. Como, evidentemente, na cama e por lá fico durante grande parte da tarde. Esse tempo foi passado, essencialmente, em redes sociais a receber informação. Acabei por fazer algumas limpezas superficiais e voltar para o conforto da manta. Foi só depois de ter desencantado jantar que tive uma reunião de umas poucas horas e acabei as limpezas. Entretanto aqui estou. Desinteressante, hein?

Esta dia pachorrento, na verdade, será visto como o dia ideal de alguém: um tempo de descanso, onde se valoriza o calor e conforto como forma de recarregar baterias, algo ainda melhor na companhia de alguém para fazer conchinha. Se pegarmos em qualquer trabalhador, principalmente que não esteja em teletrabalho, provavelmente adorará um dia destes. Se pegarmos em qualquer pessoa que luta diariamente para sobreviver, este dia é um luxo de valor incalculável, um Euromilhões. No entanto, chego ao final deste dia vazio e não estou satisfeito. Sou ingrato pelo meu privilégio de poder ter um dia destes? Como estudante, não terei eu também um grande desgaste de energia ao longo da semana? Não seria normal ficar satisfeito com a possibilidade de ficar quieto?

Bem, a verdade é que algo me parece sussurrar que devia ter feito algo: estudar mais, limpar mais, adiantar artigos, ler, ver filmes,… o mínimo que pudesse ser chamado produtivo, fosse estudo, doméstico ou cultural. Encher o tempo, basicamente. O que não me deixou aproveitar o descanso foi esta efervescência contemporânea que nos leva a achar necessário estar sempre a fazer algo. Descanso é visto como preguiça. A verdade é que sem ele damos em malucos, mais, damos em zombies que vivem como animais máquina.

Enquanto escrevo estas palavras à luz do bom senso, sei que há em mim ponta de preguiça. Vejo o conforto da minha cama e pergunto-me como pode um jovem de 21 anos querer tanto estar sempre nela enfiado. Já anteriormente abordei esta assunto. Nós temos um problema enquanto sociedade, esgotamos as pessoas. Não sou só eu. E tenho sorte de ser este o meu problema e não de me ter calhado a fome. Contudo suspeito que este sintoma seja também preocupante de um sistema doente. Um sistema que nos faz ver o buraco que há em nós e nos atira à exploração como forma de o preencher.

O sentimento de vazio que há em nós até pode ser preenchido em certa parte pelo trabalho, mas pela sua utilidade. Por o nosso esforço numa fatia razoável de tempo ter sido investido numa riqueza comum, sentimo-nos parte de um organismo maior e há uma realização pessoal. As outras faces da realização veem com o tempo de qualidade: família, cultura, lazer, projetos pessoais,…