No passado domingo ocorreram as legislativas espanholas. Estas eleições foram convocadas no final de maio, depois do resultado obtido nas locais (câmaras municipais e comunidades autónomas), tendo-se adiantado o sufrágio que só deveria ter ocorrido no final deste ano. Que se tenha em consideração que, desde 2019, Espanha é governada por uma coligação PSOE-Unidas Podemos, que junta no governo o seu «PS» e uma coligação de esquerda. O governo ao longo dos anos tem sofrido um enorme desgaste pelas discussões internas, pela definição da agenda governativa. O descontentamento do eleitorado tornou-se expressivo no dia 28 de maio deste ano, com pesadas derrotas para o centro-esquerda e esquerda espanholas nas locais.
Com um PP («PSD») a esfregar as mãos, sedento de poder, considerando possível um governo com a extrema-direita, a decisão de antecipar as eleições foi uma surpresa. No entanto, Sánchez já provou ser um tubarão político: desde 2014 que lidera o PSOE, tendo já enfrentado pesadas derrotas e, no entanto, conseguiu permanecer nas suas posições, sobrevivendo a primárias internas e, a partir de 2018, mantendo-se à tona como primeiro-ministro. Claramente algo teria na manga. Uma explicação, que provavelmente será a melhor, é que apesar da votação dos espanhóis nas locais, uma aliança com a extrema-direita não é bem vista. Como no decorrer das locais temos a formação de governos com acordos PP-VOX, as pessoas têm presente essa recusa, algo que Sánchez quis instrumentalizar (aliás, tal como António Costa fez em 2022). O propósito ainda passou melhor pela campanha extremada que o VOX protagonizou e da qual Feijóo não se conseguiu distanciar, nem tendo participar no debate dos «grandes» (PSOE, PP, VOX e Sumar). O maior risco poderia vir dos partidos independentistas, que afastariam a possibilidade de maioria absoluta – se bem que claramente, à partida, já se sabia ser inalcançável. O PSOE precisa de uns parceiros fortes: assim surge o Sumar, uma espécie de sucessão do Unidas Podemos, liderado pela vice-primeira-ministra e ministra do trabalho, Yolanda Diaz – que, aliás, é uma das figuras políticas que gera mais simpatia. Se no início podia não ser evidente, durante a campanha ficou evidente a coordenação entre PSOE e Sumar. A grande fraqueza do Sumar corresponde às suas disputas internas, tendo a coligação sido formalizada no último minuto possível, fruto das conversações com o Podemos.
Os resultados corresponderam à estratégia de Sánchez, que se vê com mais uma oportunidade de formar governo, algo que provavelmente não aconteceria no final do ano por já haver um maior distanciamento PP-VOX. Vemos um cenário bipolarizado, algo que fez esbater a importância parlamentar dos partidos nacionalistas e independentistas. PP acabou com 33% e PSOE com 32%, virtualmente um resultado equivalente. VOX e Sumar acabaram ambos com 12%. Para haver uma maioria são necessários 176 deputados: PP-VOX tiveram 169 e PSOE-Sumar 153. Como não é expectável PP-VOX conseguirem aliados nacionalistas e independentistas, o caminho parece livre para Sánchez e os seus parceiros. O problema é que, tudo somado, fica a faltar uma só peça: o Junts, o partido do Puigdmont, centro-direita independentista catalã. Este partido é fulcral, no entanto já afirmar estar indisponível para apoiar a investidura. Se, pelo menos, não se abstiver, Espanha provavelmente ouvirá falar em eleições de novo em 6 meses.
Destas eleições fica o repto à união das esquerdas e a repulsa à presença de um partido com apoiantes a fazer a saudação nazi no governo. Fica também o riso de Ayuso, pronta a destronar Feijóo.