Vivemos numa sociedade que venera os grandes números, onde o sucesso e o desenvolvimento parecem medir-se exclusivamente pelo volume do dinheiro acumulado. Recentemente, o serviço regional de estatística publicou os dados dos PIBs por ilha entre 2021 e 2023. O que podemos pensar a partir destes números?
Para compreendermos a verdadeira dimensão da questão, convém clarificar, de forma simples, o que é o PIB (Produto Interno Bruto). Em traços gerais, este indicador representa o valor de mercado de todos os bens e serviços finais criados num determinado território, num certo período de tempo. Para se evitar a dupla contagem - ou seja, contar o valor do trigo, depois somar o da farinha e novamente o do pão -, calcula-se o Valor Acrescentado Bruto (VAB) de cada etapa, deduzindo os consumos intermédios ao valor das vendas da produção. Este indicador elementar pode ser lido de três formas consistentes entre si: pela ótica da produção (a soma dos VABs e impostos líquidos de subsídios), pela ótica da despesa (o que as famílias, empresas e Estado consomem e investem, mais o saldo das exportações) e pela ótica do rendimento (a soma das remunerações do trabalho, lucros, juros e rendas).
Olhando para os dados estatísticos recentes, percebemos que o bolo económico cresceu: o PIB regional passou de 4.374 milhões de euros em 2021 para 5.374 milhões em 2023. A fatia micaelense domina, passando de 59% para 60,8% (atingindo os 3.271 milhões de euros). Em contrapartida, ilhas como a Terceira registaram a maior quebra no seu peso relativo, descendo para 20,31%. Faial, São Jorge, Graciosa e Santa Maria também viram a sua relevância percentual recuar, enquanto Pico, Flores e Corvo registaram subidas quase marginais. Se dissecarmos o Valor Acrescentado Bruto por setores, a assimetria adensa-se e revela as nossas dependências. A nossa economia é esmagadoramente dominada pelo setor terciário (serviços, turismo e comércio), que em 2023 gerou quase 3.796 milhões de euros na região, contrastando fortemente com os 589 milhões do setor secundário e os "meros" 295 milhões do setor primário.
Perante a ilusão destes grandes agregados macroeconómicos, urge perguntar: para onde vai esta riqueza? A concentração geográfica em São Miguel é apenas o espelho de uma concentração muito mais perversa e perigosa: a concentração social. Num sistema capitalista desenhado para acumular capital, o facto de a economia crescer não significa, de forma alguma, que a vida do trabalhador que recolhe o lixo, do caixa de supermercado ou do professor tenha melhorado. Pelo contrário, assistimos a um assoberbamento da classe média e baixa, confrontadas com a estagnação dos salários face à inflação galopante e a uma crise na habitação que asfixia os jovens.
Produzir riqueza não basta; é um imperativo ético distribuí-la com justiça. Se a ótica do rendimento nos ensina que o PIB resulta da soma de salários e excedentes de exploração, a realidade das ruas mostra-nos que este aumento da riqueza tem engordado desproporcionalmente as contas de poucos, em detrimento de quem efetivamente a cria com o seu suor: os trabalhadores. A nossa obsessão pela produtividade cega num planeta de recursos finitos tem de dar lugar a uma política centrada na dignidade humana. Não podemos tolerar que, enquanto se celebram recordes orçamentais, existam açorianos a contar os cêntimos ao fim do mês para garantir comida e um teto.
Dinheiro não falta, falta é vontade de justiça.