No tempo da internet estamos habituados a desumanizar: é uma realidade a duas dimensões, pautada por aquilo que vemos nos ecrãs. É fácil esquecer que do outro lado do ecrã também está um ser humano, alguém de carne e osso. Por essa razão, prolifera o ódio nos comentários de redes sociais, porque não encaramos quem criticamos na sua cara. Sente-se à distância a impunidade e fanfarronice que transbordam das caixas de comentários. Podemos perguntarmo-nos: qual a importância disto? Certamente podíamos colocar-nos indiferentes, afinal, cada um faz as suas escolhas. O problema é que este fenómeno tem consequências: a esmagadora maior dos portugueses usa redes sociais, estamos a falar de um espaço comum que é quotidianamente acedido por milhões de pessoas. A postura destrutiva torna esse espaço tóxico, gera mal-estar gratuitamente. A sua omnipresença propaga o cinismo: sentimo-nos indiferentes, «tudo está mal, de que serve fazer algo?». E essas atitudes vão-se materializando: o cinismo é reforçado e o discurso de ódio vai perdendo a vergonha pela sua normalização. A própria agressividade com que as pessoas falam parece estar a acentuar-se.
Os espaços digitais que têm um potencial imenso para fomentar uma rede social, no sentido de percebermos que somos uma teia, e partilharmos democraticamente informação (no seu sentido mais lato), torna-se a cada dia um local mais suscetível de interferir negativamente com a nossa saúde mental. A internet tal como a conhecemos hoje parece estar prestes a mudar, com um surgimento em força da Inteligência Artificial – que ameaça ainda mais o nosso sentido crítico, pelo menos da forma que está a acontecer. Sendo este um espaço que participou e participa na socialização secundária de várias gerações e nos últimos tempos parece estar a entrar na socialização primária, é fundamental dar-lhe sanidade. Não podemos deixar a educação e a civilidade, mas mãos de empresas oligárquicas, cuja preocupação é o lucro.
Talvez quem esteja a ler ache isto tudo um exagero. Eu posso dizer por experiência que não é. Mais uma vez: esse discurso promove a inércia, o ficarmos quietos, porque só é alvo de críticas quem faz algo. Olhemos para as páginas de associações e não tardará a encontrarmos um bitaite que desvaloriza o trabalho de quem dá voluntariamente à comunidade abdicando do seu tempo pessoal. Olhemos para as páginas de escolas para se ver as perversões de consciência criadas. Visitemos as páginas de partidos ou políticos para ver como o insulto é a norma.
Choca-me particularmente ver como a primeira reação é de repulsa, independentemente do conteúdo ou pessoa. No âmbito político, é impressionante como não se distingue um candidato que nunca teve poder ou um político de carreira. São ambos maus.
Esse sentimento, na verdade, enquadra-se no tal cinismo que se revolta contra uma imagem que construiu de «política» no seu todo. O problema é que nessa perspetiva a única saída é o autoritarismo. É a saída mais fácil: é a única capaz de acabar com o ruído da pluralidade, porque a suprime. Elimina todas as incertezas, porque impõe um caminho.
O apelo que gostava de deixar nestas palavras é para que nos lembremos de que a pessoa que está do outro lado de uma representação, seja um ecrã ou um cartaz, é também uma pessoa. Devemos ser capazes de manter um mínimo de respeito – é surreal ser preciso escrever isto. Tal como devemos olhar e analisar as pessoas, além das entidades – que só existem por ser grupos de indivíduos. Este planeta é um palco de luta de egos, convém sabermos com quem estamos a lidar – principalmente se for para nos representar.