Há uma semana, no dia 1 de setembro, o Diário Insular publicou a grande entrevista que me fez sobre os investimentos espaciais em Santa Maria, uma oportunidade que agradeço. Respondi enquanto um cidadão que procura estar informado e envolver-se na comunidade, em particular, como coordenador do Bloco de Esquerda em Santa Maria. Julgo ser pertinente desenvolver algumas considerações, especificamente aquelas que resultam de juízos potencialmente subjetivos.
Desde logo, pensar sobre a imaturidade política: a redução de um problema a duas soluções. É a falácia informal do falso dilema: pode haver outras possibilidades. Perante cada problema procurar vincular imediatamente uma posição a favor ou contra é redutor e castrador. A democracia não é construída a partir de claques. Deve ser um processo de cooperação para se encontrar a melhor solução.
As redes sociais são um excelente exemplo deste fenómeno. Talvez seja esta propriamente a cultura do cancelamento: o cancelamento de pensamento. Longe de criticar a defesa acérrima de uma posição, preocupo-me é com a sua justificação. Onde está o raciocínio que a suporta? A informação que a torna plausível? Como parece que temos de opinar sobre tudo a todo o momento, qual especialista em generalidades, é normal que se adote um sistema de classes: basta seguir a cartilha. Este parece ser um assunto para a educação, esclarecer se o seu objetivo científico consiste em adquirir conhecimento ou competências. Cá está outro falso dilema. Será certamente os dois, entre outros. Destaco o objetivo de autonomia do estudo: a possibilidade de alguém ter as ferramentas para pesquisar, colmatar a falta de informação que a move. Note-se como isto implica uma primeira assunção: eu não sei “isto”. Depois é preciso decidir os locais e métodos para preencher essa lacuna. Por fim, é necessário ser crítico da resposta: será que aquilo que obtivemos é sólido? Ora, isto dá trabalho e não é por acaso que existe ensino superior especializado: é preciso tempo e concentração. Saber tudo sobre tudo é, portanto, impossível, sendo necessário uma humildade intelectual como corolário ao espírito crítico.
Esse tipo de atuação é, portanto, uma forma de divisão da classe. Enquanto andamos a trocar palavras vazias, não fazemos um diagnóstico e a necessária investigação – quanto mais não seja a procura por notícias e especialistas, a roa não precisa de ser constantemente reinventada.
Estas palavras parecem denotar uns delírios utópicos quando enquadradas na nossa vivência democrática. As unidades de deliberação da nossa democracia são os partidos políticos. O termo claque aqui encaixa perfeitamente: desde a militância herdada, à intransigência. Parecem o contrário do que precisamos. É preciso ter presente dois aspetos sobre partidos.
Em primeiro lugar, são sistemas ideológicos. As suas posições não articulam simplesmente factos, como valores. Estes valores são a identidade de cada partido, aquilo que aproxima os seus militantes, os princípios que orientam. Os valores são os limites que se estabelecem.
Por outro lado, têm uma dupla-função democrática: construir e fiscalizar. Cabe a cada partido construir uma visão da sociedade que defende e propor soluções sobre problemas que vão surgindo. A fiscalização é a tentativa de salvaguarda, de defender contra o que poderá estar mal. O ato de fiscalização não é uma posição antagónica, é garantir o máximo benefício para todos.
Se tudo isto parece desmoronar, então mais que falar, é preciso envolver.