Existe uma área do conhecimento que se chama lógica. Ela permite-nos estudar os argumentos de um discurso, percebendo se ele faz sentido, ou não. A lógica é, portanto, o pior pesadelo daquelas pessoas que abusam das palavras para nos tentar enganar ou passar ideias falaciosas.
Permitam-me tentar trazer aqui alguns aspetos básicos da lógica.
Desde logo, tenhamos em mente que um argumento é composto por premissas e uma conclusão. As premissas são frases declarativas, que, encadeadas, justificam a conclusão a que se chega. A própria conclusão é uma frase. Como é intuitivo, a todas as frases declarativas podemos atribuir a verdade ou falsidade. A relva é verde é verdadeiro, as baleias são pássaros é falso, por exemplo. Assim sendo, é possível avaliar cada premissa e a sua conclusão quanto à sua verdade.
Perfeito, então se todas as premissas forem verdadeiras temos uma conclusão verdadeira, certo? Errado. Eu posso dizer que todos os pássaros são mortais e que o Manuel é mortal, mas isso não significa que o Manuel é um pássaro (pode ser qualquer ser vivo). Para um argumento ser correto, ou seja, ser um bom argumento cuja conclusão é inquestionável, não só precisa de ter as premissas todas como verdadeiras, como necessita de ser válido.
Ora, existe um critério que afirma que a verdade da conclusão nunca pode ser pior do que a das premissas. Isto significa que se tivermos diante de nós um argumento com as premissas todas verdadeiras, mas conclusão falsa, ele é indubitavelmente inválido. Todas as outras combinações nada nos dizem sobre validade. É guiado por esta noção que nos podemos orientar, mas a este ponto já percebemos que é necessário um pouco de esforço para examinar um argumento. Provavelmente teremos de o escrever.
A validade não é intuitiva, porque ela só se ocupa com a forma do argumento e não o conteúdo. Um argumento também não é correto só por ser válido. Só a verdade das premissas conjugadas com a validade nos dá um argumento correto.
Olhando para o nosso argumento temos de pensar: se eu assumir que as premissas são todas verdadeiras (mesmo que sejam falsas, vamos fingir), será que a conclusão que eu retiro pode ser falsa? Se conseguirmos pensar numa realidade em que isso aconteça, então é inválido. Ainda no argumento visto há umas linhas, percebemos que o Manuel podia ser cão, tornando a conclusão falsa, apesar da verdade das premissas. A este método chamamos contra-exemplo.
Outra forma de ação é o contra-argumento. A ideia é simples: vamos pegar no esquema do argumento e trocar os sujeitos e os predicados para algo que efetivamente nos vai parecer ridículo. Por exemplo, vou arranjar um contra-argumento para o exemplo do Manuel: Todos os açorianos comem Mulatas; a Joana come Mulatas; logo a Joana é açoriana. Como muito bem sabemos, há muitos continentais que adoram comer as nossas Mulatas e não é por isso que se tornam açorianos.
Às vezes é mais fácil de pensar nestes argumentos como conjuntos. Esta premissa cria este conjunto, esta premissa cria este conjunto, e depois vemos se se intersetam, comparamos com onde a conclusão fica,…
Outro aspeto, provavelmente mais intuitivo de avaliar o discurso é através da identificação de falácias. Há algumas formais, mas as mais conhecidas pelo público e aquelas que mais facilmente conseguem ser identificadas são as informais. A ad hominem, por exemplo, é a mais famosa, sendo ao argumento um ataque ao orador e não às suas ideias. Uma abordagem a este tema poderá ficar para um outro artigo.