Pensar é chato

E está fora de moda. Vivemos numa sociedade acelerada, onde o tempo é visto como um recurso escasso e valioso. É «natural» tudo ser feito sem haver lugar para uma respiração profunda (só para suspiros e mesmo assim…). Quando se faz uma pergunta a alguém, a nossa expectativa é de uma resposta naquele exato momento. Provavelmente, talvez dependendo do contexto, até julgaremos a pessoa que toma uns momentos – pior ainda se não souber a resposta, então foi fazer-me perder o meu tempo! [1]

Como se não bastasse o imediatismo da resposta, ela tem de ser concisa. Um bom raciocínio é o mais simples possível, que permita a coerência mínima da teia conceptual e está a andar. A nossa atenção é menor e não queremos debater (com debater entendo uma troca de argumentos válidos estruturada e justificada, muito longe das redes sociais e da maioria das conversas de café). Ou seja, pensar antes de responder, responder justificadamente e permitir o desenvolvimento da resposta é tudo, na verdade, um custo de tempo. É esta a nossa sociedade. Não admira que às vezes as respostas de que precisamos estejam tão longe da nossa vista.

O pensamento crítico é a atitude de não aceitar per si uma afirmação, desconstruindo a realidade que nos é dada, e formular estruturada e justificadamente essa afirmação, num sólido processo construtivo. Estes processos são complicadíssimos de fazer com tudo o que nos aparece: é impossível estarmos o dia todo a fazê-lo. Por isso, confiamos nos testemunhos. Nesse sentido, o nosso treino tem de ser o de reconhecer a autoridade epistemológica das fontes e estar atento a algo que soe mais estranho, averiguando se houver essa importância. Este hábito de questionar e investigar tem de ser estimulado, por forma a se perceber o que é pura retórica, demagógica, e o que tem conteúdo.

Para que servem debates? Quando os interlocutores têm posições definidas e fundamentadas, podem ser úteis para encontrar fragilidades na argumentação e, assim, robustecer cada raciocínio. Parece-me ser muito romântica a ideia do debate como conversão. Não digo que com eles pessoas não possam mudar de opinião, mas parece-me uma minoria das vezes. Talvez em alguns se consegue chegar a alguma conclusão conjunta, mas isso exige haver uma flexibilidade ou essa conclusão ter um caráter geral/abstrato. Agora, quando falamos de debates entre alguém com uma posição definida e fundamentada com alguém sem opinião ou de espectadores sem opinião de um debate entre pessoas com posições definidas e fundamentadas, penso que já podemos falar mais claramente da possibilidade de conversão. Julgo que esta é a base dos debates eleitorais: a persuasão dos indecisos. Um grande problema é existir muita gente (pelo menos muito ruidosa) que tem as posições definidas, mas não fundamentadas: não esclarece, nem deixa esclarecer. Emperra o debate. E aqui encaixa o desenvolvimento da questão anterior: mesmo diante das afirmações mais estapafúrdias devemos tomar um tempo para pensar, quanto mais não seja em como foi possível aquela verbalização ou como contrariá-la.

Não sei se por estar em Filosofia, o meu primeiro instinto numa conversa é contrariar, mesmo que concorde com o que a pessoa está a dizer. Admito que é bastante irritante, faço-o, muitas vezes inconscientemente, em piloto automático, como resposta cética. No mínimo, treina-se a paciência (dos outros).

[1] É interessante analisar como em certos contextos não saber a resposta é o suposto, há um endeusamento da ignorância. Talvez pela insegurança pessoal que se gera por viver numa sociedade sedenta de respostas (e rápidas) e sentir-se que não se consegue atingi-las (nos moldes que a sociedade fast food impõe).